O Movimento Cittaslow, Greve in Chianti e Slow Food

Tempo de leitura: 9 minutos

Por Rogerio Ruschel, de Florença, julho de 2012. Exclusivo

Nesta matéria publico a segunda parte da entrevista com Paolo Saturnini, ex-presidente nacional da Associazzione Cittá Del Vino; ex-prefeito de Greve in Chianti entre 1990 e 2004; autor de dois livros de culinária envolvendo vinhos e do livro “L’armonia Del Chianti – riflessioni su una terra in bilico” sobre seu território e as memórias do nascimento do Movimento Cittaslow.

Proposto e implantado por Saturnini em Greve in Chianti em 1999, o Movimento Cittaslow – a mais revolucionária proposta de desenvolvimento urbano sustentável da atualidade – já está sendo aplicada em 235 cidades de 30 países. Saturnini me recebeu em Florença, na Itália, em fins de abril, e me concedeu esta entrevista exclusiva sobre a gênese e o desenvolvimento do Movimento Cittaslow que teve sua primeira parte publicada no blog “Cittaslow: a revolução urbana inspirada no vinho” (veja aqui:http://www.invinoviajas.com/…/cittaslow-revolucao-de-gesta…/  ) e continua aqui.
  Congresso internacional do Movimento Cittaslow na Coréia do sul, em 2010
  
Ruschel:
Ser uma Cittaslow é viável só para cidades pequenas?
Paolo:
É mais adequado para cidades pequenas, para evitar que cometam os  mesmos erros das cidades que cresceram sem controle. Cidades pequenas devem preservar; cidades grandes precisam revolucionar – e não sabem como. Cidades grandes têm mais de uma alma: de culinária, de transporte, de energia, etc e porisso têm que fazer mudanças por bairros, por setores. Quem mora em cidades grandes pode perder a noção de território, de pertinência e de tempo. Atualmente os estatutos da Cittaslow só aceitam cidades associadas com até 50.000 habitantes. Talvez este limite seja revisto na medida em que o movimento se amplie. (Nota do repórter: para se tornar uma Cittaslow, a cidade candidata tem que pagar 600 Euros de taxa de inscrição, receber a visita de auditores e promover uma reunião da qual participem pelo menos 3 municípios associados da rede. Feito isso, deve aceitar os termos dos Estatutos da associação e se comprometer com políticas públicas que ajudem a criar um ambiente propício para atingir os objetivos. No Brasil ainda não encontramos nenhum gestor público disposto a se comprometer desta maneira).
 Paolo Saturnini

 

Ruschel:
Como funciona o projeto Cittaslow?
Paolo:
Este é um projeto “em andamento” no sentido de que ele cresce por etapas, quer através do aumento do número de cidades participantes, quer pela aplicação e realização dos objetivos de Cittaslow nas cidades. Quando você se torna uma Cittaslow você tem certos requisitos; com o tempo não só esses requisitos devem ser mantidos – e na medida do possível melhorados – mas também deve lutar para viabilizar outros requisitos que ainda não existiam no momento de reconhecimento.
Ruschel:
Como foi implantado em Greve in Chianti, quais as dificuldades?
Paolo:

Primeiro explicamos os objetivos e debatemos públicamente sobre o que poderia surgir de positivo ou negativo. Criado um ambiente receptivo, começamos a discutir legislações relacionadas a assuntos de interesse coletivo como meio ambiente, energia limpa e mobilidade. Greve in Chianti tinha uma comunidade de imigrantes árabes, que têm outra cultura, e mesmo assim deu certo, porque não existiam diferenças econômicas gritantes. Seguimos nosso ditado “chi va piano va sano e va lontano” (em tradução livre, devagar se vai ao longe).
  

 

Massas e vinhos em loja de Greve in Chianti: a enogastronomia faz parte da cultura

Ruschel:
O movimento está em 30 países, inclusive em vários com culturas diferentes da européia como China, Colombia, Estados Unidos, Nova Zelândia, Coréia do Sul e África do Sul. Como é feita a mobilização para a candidatura, quem entra com o pedido, como se comportam os políticos?

Paolo:
Pode ser proposto por políticos, mas na maioria das vezes é um movimento que nasce na base, nas ruas, liderado ou proposto por intelectuais da comunidade. Foi o caso da Coréia do Sul, da qual fui o padrinho. Acho que a internet atualmente permite esta mobilização em escala mais rápida. Mas a proposta só pode vingar se tiver o apoio do poder público, e isto pode dificultar. Alguns políticos percebem a oportunidade de visibilidade, e dependendo da mobilização, o prefeito e os vereadores acabam aderindo ao protagonismo comunitário, mesmo que não tenham muito desejo lá no íntimo. E tem outra questão: a dos partidos políticos, que é muito sério aqui na Itália. Geralmente os prefeitos não querem continuar ideias do antecessor, então as propostas mais bem sucedidas são as que conseguem suplantar isto. No meu caso em Greve in Chianti, quando como prefeito eu comecei a falar sobre Cittaslow, encontrei uma adesão significativa de todos os partidos políticos, inclusive da oposição, e isso facilitou a tarefa. Outro segredo do sucesso é que é preciso reconhecer o papel e importância das forças econômicas e sociais, e suas demandas precisam ser contempladas. (Nota do repórter: no Brasil as cidades de Tiradentes, Minas Gerais; Carlos Barbosa, no Rio Grande do Sul e Santa Teresa, no Espírito Santo tentaram se associar mas desistiram).
 A cidade de Biskupiec, na Polônia, é uma das 180 que integram a rede Cittaslow em 25 países
   
Ruschel:
Existem outras iniciativas similares?

Paolo:
Sim, existem outras iniciativas. A maioria dos municípios participantes do Cittaslow também faz parte de outras associações como, por exemplo, associações de “identidade da cidade” (cidade do vinho da cidade, pão, cidade Querida, cidades floridas, etc.) que realizam políticas e objetivos similares aos da Cittaslow. Muitas cidades também acompanham regularmente as atividades do Slow Food, ou Legambiente ou Symbola, organizações que têm uma origem comum com Cittaslow na defesa do meio ambiente e na qualidade dos produtos locais. (Nota do repórter: No Brasil outros movimentos similares são Cidades Sustentáveis e Transition Towns – de âmbito nacional – e movimentos do tipo Nossa CidadeTal, Observatório da CidadeTal). 
O berço da Cittaslow
Greve in Chianti é uma pequena comunidade de menos de 15.000 habitantes a 30 quilometros de Florença, no coração da Toscana. Provavelmente existe antes dos etruscos e dos romanos dominarem a área; os registros mais antigos são do século XI.  A economia local está baseada na exportação de óleo de oliva extra virgem e vinhos chiantis e super-toscanos e importação de turistas. A cidade abriga atrações como a Igreja Santa Croce (século XI), uma casa que foi de Américo Vespúcio, um mosteiro Franciscano do século XIV e o castelo de Verrazzano construído pelos Lombardos no século XIII, entre outras obras. Atraídos pela beleza e charme da região e por festivais de vinho, festa das flores, feiras de antiguidades e uma feira semanal de produtos típicos na Piazza Matteotti, a principal da cidade, os turistas que visitam Greve in Chianti podem se deliciar com uma gastronomia de alta qualidade que inclui trufas, porcos Cinta Senese e veados selvagens – todos de produção local. 
 Greve in Chianti durante a Festa dei Fiori, em 2010

Por todas estas razões, ter uma propriedade na região se tornou o objeto do desejo de bem resolvidos e ricos do mundo inteiro que compram propriedades idílicas como as famosas vilas toscanas, pequenos castelos e propriedades rurais centenárias com áreas de produção de azeite e vinho. Compram e não podem modificar um único tijolo. Em 2010 a revista norte-americana Forbes a nomeou a primeira da lista de “Europe’s Most Idyllic Places To Live.”

Mas Greve in Chianti prospera de um jeito diferente, controlado. Nos anos 80 a cidade já começava a ter problemas de perda de identidade por causa do volume de turistas. Como enfrentar o desafio de atender turistas em maior volume do que podia sem se descaracterizar? A solução convencional no turismo nestes casos é buscar a qualidade, mas a comunidade já oferecia isto. Foi quando o então prefeito Paolo Saturnini propôs uma idéia simples: a associação do conceito de “slow food” para a cidade inteira, um conceito que se materializou no Movimento Cittaslow.

Slow Food: a inspiração

O Movimento Slow Food foi criado em 1986 pelo italiano Carlo Petrini e se transformou em uma organização internacional atualmente com milhões de sócios em mais de 160 países que promove a eco-gastronomia, a educação alimentar, alimentos sustentáveis e a agricultura de base local. O princípio é simples: a forma como nos alimentamos tem profunda influência no que nos rodeia – na paisagem, na biodiversidade da terra e nas suas tradições.

 

 

O Movimento Cittaslow herdou não só os princípios, mas também o logotipo Movimento Slow Food, colocando casinhas nas costas do caracol

 

Com sede na cidade de Bra, na Itália, o Slow Food opera tanto localmente (em parcerias como com a Terra Madre, encontro internacional de comunidades do alimento que trabalham pela sustentabilidade de seus produtos alimentares, e com a Fundação Slow Food para a Biodiversidade, braço científico do movimento), como globalmente, em parceria com instituições como a FAO – Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação.

 No Brasil o movimento mantém 8 Fortalezas (projetos que defendem produtos ou modos produtivos agrícolas específicos de um local), inseriu 24 produtos brasileiros na Arca do Gosto (catálogo mundial de sabores quase esquecidos de produtos ameaçados de extinção) e desde 2004 tem um convênio com o o Ministério do Desenvolvimento Agrário para desenvolvimento de projetos.  Veja mais em http://www.slowfoodbrasil.com
Por enquanto é isso, caro leitor: um brinde à qualidade de vida.
(*) Rogério Ruschel rogerio@ruscheleassociados.com.br  – é jornalista especializado e editor da revista eletrônica “Business do Bem – Economia, Negócios e Sustentabilidade”. Ruschel viajou à Itália a convite dele mesmo.

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