Vinhos vulcânicos, as montanhas Peloritani e as maravilhas de Tindari

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O promontório de Tindari

Por Rogério Ruschel (*)

A Província de Messina é delimitada pelos oceanos Tirreno e Jônico e pelos montes Peloritani, uma cadeia de montanhas não muito altas (a Montagna Grande, maior pico, atinge 1.374 metros). De formação ígnea e metamórfica, a cadeia faz parte dos Montes Nebrodi a oeste e da estrutura do vulcão Etna, ao sul, e esconde pequenos vilarejos como Novara di Sicilia, Castroreale e Antillo.

Os montes Peloritani vistos de Novara

Saindo de Messina pelo litoral norte coloquei meu pequeno Fiat Panda alugado na rodovia 113, mais turística e menos movimentada do que a moderna auto-estrada A19 que vai até Palermo, com seus belos túneis e elevados. O destino era conhecer Milazzo e Tindari, mas na altura de Barcellona fui convidado a conhecer Novara di Sicilia, um típico vilarejo dos montes Peloritani. 

O vale dos montes Peloritani 

E bota típico nisso: o vilarejo – com 650 metros de altitude – tem menos de 2.000 habitantes e vocação para a agricultura, especialmente frutas, alguns vinhedos e oliveiras para a produção de azeite. Outro aspecto típico é a decadência generalizada (teve quase 7.000 habitantes na década de 1920), o que acontece de maneira generalizada na Sicilia. 

Explico. Com a entrada da Itália no grupo do Euro, aconteceram duas coisas: por um lado os jovens sicilianos agora podiam ir procurar emprego e estudar não mais só em Milão ou Roma, mas em qualquer pais europeu – e o estão fazendo. Na outra ponta, os mais velhos, que fizeram previdência social em Liras italianas, se aposentaram (com grandes ganhos) em Euros. Aliás, esta é uma das causas dos problemas econômicos da Itália neste momento. 
Com isso está ocorrendo um visível esvaziamento populacional e um empobrecimento da Sicilia. O fato de empresas tradicionais do negócio do vinho da Itália continental como os grupos Marzotto Santa Margherita, Grupo Italiano Vini e Zonin estarem investindo na ilha, e o turismo estar crescendo, pode ajudar a reverter essa tendência, mas a Sicilia tem andado “devagar” nos últimos 15 anos.
O vilarejo tem ruas simpáticas, ruínas de palácios romanos e cinco igrejas, sendo a mais importante a Catedral (Duomo), do século XVI. Encontrei um com restaurante familiar onde comi uma pasta com tempero local acompanhada por uma garrafa de vinho Etna – um dos 19 DOCs da Sicilia – produzido na vizinhança do vulcão, cujo solo vulcânico favorece os parreirais.

Mas o destino final era Tindari. Fundada ainda na Era do Bronze (1.500 A.C.), Tindari foi refundada pelos gregos em 396 A.C. e em 254 A.C. se tornou uma cidade romana. Me disseram que Tindari é uma das últimas cidades sicilianas que poderiam reivindicar uma origem puramente grega. O Santuário da Madonna Negra é a principal atração do que restou do ataque dos sarracenos à cidade no ano 836 D.C.; permaneceram ruinas de um anfi-teatro romano construído no século 4 A.C. e partes de antigos templos grego-romanos com este da foto abaixo.

Tindari está localizada na beira do mar e fui conhecer restos de antigas paredes na beira do precipício, onde talvez tenha havido um desmoronamento – pelo menos isso foi registrado pelo historiador Plínio, o Velho: segundo ele, metade da cidade teria sido engolida pelo mar. Dois portões da cidade ainda podem ser distinguidos.

Mas Tindari encosta no Mar Tirreno também em um litoral sem escarpas, formando uma espécie de praia – e o destaque é o Promontório de Tindari, local de grande beleza – veja a foto abaixo. Apesar de mais de 3.000 anos de história, Tindari foi meio “esquecida” durante boa parte do século XX e só voltou a ser valorizada mais recentemente.

No jantar, antes de dormir em um hotelzinho da vizinha Mazzarrà, tomei duas taças de um Sambuca di Sicilia, para comemorar a redescoberta de Tindari. No dia seguinte iria para Taormina, uma das “delicias” da Sicilia, que em breve vai estar aqui em outro post. Por enquanto, um brinde à Madonna Negra de Tindari, caro leitor.

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(*) Rogério Ruschel  é turista inveterado, jornalista e consultor especializado em sustentabilidade. Ruschel esteve na Sicília durante 30 dias, em 2005, pesquisando roteiros turísticos.

 

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