As brumas mágicas da sedutora Érice, a cidade siciliana do amor

Tempo de leitura: 4 minutos

Por Rogério Ruschel (*)

A cidade de Érice, na Sicilia, só poderia ter sido fundada por um povo que cultuava Vênus, a deusa do amor dos romanos (Afrodite para os gregos). Explico: a povoação foi fundada em torno de 500 AC pelos elimos com o nome de Venere Ericina, para venerar a deusa da fertilidade – e os elimos foram o povo resultante da fusão (quer dizer, transa generalizada) de gregos foragidos de Tróia com os moradores locais, os sicanos (talvez os fulanos troianos os chamassem sicranos, nunca se sabe…).

Pessoalmente suspeito que o o visual encantador da região ajudou a fertilidade dos troianos, porque a cidade é realmente mágica: como fica no alto do Monte Giuliano (ou monte Érix) num precipício de 750 metros na beira do mar, quando cai a noite tudo fica envolto em neblina que permanece até de manhã – as brumas mágicas da sedutora de Érice. E como não tinham muito o que fazer por causa da escuridão e das ruas desertas, creio que os troianos mandavam bala a noite inteira nos sicanos…
Mesmo não acreditando nesta minha “explicação histórica”, o fato é que você, mesmo sozinho, nunca mais vai esquecer de Érice. Localizada perto de Trapani e 110 Km de Palermo, a pequena cidade de 25 mil habitantes é um cenário de cinema com seu aspecto medieval, ruelas, palácios e muralhas; acho que a palavra mais correta para definir Érice é “fascinante”.
Com esta origem, digamos assim erótica, e sua localização perto do então estratégico porto de Trapani, foi natural que Érice tenha gerado disputas seculares entre cartaginenses e romanos – e por cartaginenses entenda-se uma dissidência romana que flertava com bizantinos e visigodos. E, é claro, os árabes também tiraram sua casquinha, conquistando-a em 831 D.C, bem como os normandos, a partir do século XII; isso sem falar de algumas ruínas que especialistas afirmam ser de origem fenícia. Enfim, uma suruba étnica.
A vista é espetacular: pode-se ver Trapani e a região vinífera de Marsala e dizem que em dias claros pode-se ver o Cape Bon na Tunisia, mas não tive esta sorte. A planta da cidade é triangular, com duas portas de entrada (veja o mapa abaixo) e a cidade conserva o traçado medieval.
E dentro deste traçado medieval você vai ver portais, igrejas e castelos como a normanda Igreja Matrice (veja foto abaixo, feita as 9 horas da manhã), o Castello Pepoli, o Palazzo Militari e muitas igrejas como as de San Cattaldo, San Giuliano, San Michelle, del Salvatore e San Martino. No centro da cidade, caso você tenha tempo e interesse de saber mais sobre a história da cidade pode visitar o Museo Comunale A Cordici.
Outra grande atração é o Castelo de Venére, segundo dizem, do século XII, construido onde estava originalmente o templo dedicado a Vênus, e que ao longo dos séculos foi caserna militar, sede de governo e residência de alguns poderosos como o Vice-rei don Garzia Toledo em 1561 e Don Carlo D’Aragon em 1576.
Mas o bom mesmo em Érice é caminhar pelas vielas e ruas e ver as fachadas de antigas lojas medievais que foram convertidas em bares convidativos, escritórios de artistas e artesãos, oficinas de arquitetura, residencias de alguns felizardos, ou ainda lojas de cerâmicas ou de tapetes – a cidade tem uma certa tradição na confecção de tapetes.
A cidade tem bons hotéis e come-se muito bem nos restaurantes e bares. Mas se me permite uma sugestão, aproveite para provar os doces e uma das tradições de Érice, os pastéis. Criados por freiras em conventos nos séculos XIV a XVIII, os pastéis, dizem os locais, são conhecidos no mundo todo. Comi uma meia duzia deles na pasticceria Maria Grammatica por 10 euros, uma refeição.
E evidentemente, como Érice está na principal região vinícola da Sicília, sugiro bebericar os vinhos Marsala, fortificados como o conhecido português vinho do Porto ou Sherry, feito com as uvas locais Grillo, Catarratto ou Inzolia. Vinhos “convencionais”, de mesa, também locais, podem ser encontrados facilmente como Malvasia, Moscatos ou o Nero D’Avola, familiar aos brasileiros e geralmente comparado a um bom Syrah.
A Sicília tem muito mais para mostrar, mas este vai ser – pelo menos por enquanto – o penúltimo post da série siciliana, porque o mundo é muito grande e tem muuuuuuita coisa pra conhecer. Praga, por exemplo. Ou Berlim, Annecy, Nova Zeliandia, São Luis do Maranhão. Quem sabe o Equador? Vamos ver o que vai aparecer aqui no In Vino Viajas. Enquanto isso, um brinde, caro leitor.
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(*) Rogério Ruschel – editor deste blog é turista inveterado, jornalista e consultor especializado em sustentabilidade. Ruschel esteve na Sicília durante 30 dias pesquisando roteiros turísticos.

 

 

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