Um agradável passeio pelo terroir de Saint-Émillion

Tempo de leitura: 6 minutos

Por Rogerio Ruschel (*)
Além de mais importante, Bordeaux é a região vinícola mais complexa do mundo. Na verdade os produtores tiveram vários séculos para estudar o terroir (isto é, o conjunto de condições de produção como as características de cada uva, o solo, o clima, a insolação, o regime hídrico, a humidade do ar, etc.), aperfeiçoar os métodos de produção e sofisticar as condições de classificação.
Mas basicamente existem cinco grandes áreas vinícolas cortadas por dois rios, o Garonne e o Dordogne, que se fundem no estuário do Gironde, na altura do Baixo Médoc e Pauillac, para chegarem juntos ao Oceano Atlantico. Veja no mapa abaixo. As regiões são chamadas genéricamente de “margem direita” e “margem esquerda” dos rios Gironde e do Dordogne. Saint-Émilion, Pomerol e Fronsac (entre outras denominações) ficam na margem direita do Dordogne, ou como os franceses preferem chamá-la, na Libournais, em referencia à antiga capital Libourne, que vem a ser o segundo centro comercial mais importante de comercialização do vinho Bordeaux.

Saint-Émillion é um vilarejo medieval de origem romana com menos de 2.000 habitantes, cerca de 40 Km de Bordeaux, muito bonito, altamente turístico.

O assentamento original de Saint-Émillion foi feito no século II em um planalto de calcáreo e argila, sobre rocha sólida de argila. Veja na foto abaixo a cor do solo, que é também a cor dominante da cidade e da região.
Menires de pedra indicam a presença de comunidades humanas até 5 séculos antes de Cristo, mas a primeira igreja católica data do século VII. Boa parte da cidade foi tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1999, especialmente por causa da maior igreja subterrânea da Europa, toda cavada em rocha no século 11, mas também pela região vinícola histórica que ainda continua produzindo.
A cidadezinha é cercada por parreirais de uvas Merlot e Cabernet Franc (especialmente) descem por encostas ingremes (as chamadas côtes), em direção a planicie onde fica Pomerol.
Os franceses descrevem o terroir geral da região como “côtes et plateaux calcaires, hautes terrasses et basses plaines, rochers, sables, molasses et astéries.” Em outro post vamos apresentar a Saint-Émilion turística, agora vamos falar de vinhos.
O solo de rocha calcárea da região está todo perfurado: nos campos, para a construção de adegas dos châteux (veja aqui no post em http://invinoviajas.blogspot.com.br/2013/05/saint-emilion-visita-aos-subterraneos.html) e na cidade, onde uma das atrações turísticas é passear por catacumbas ou na igreja principal que foi esculpida um uma rocha sólida, em baixo da terra.
O curioso é que o principal restaurante da cidade, ligado a um hotel, fica no nível do solo, mas na verdade ele está em cima do telhado da igreja construida no sub-solo e você pode almoçar ao lado de pedaços da igeja que estão fora do solo – veja abaixo o terraço onde o restaurante está e na outra foto detalhes da “metade superior” da igreja, ao nivel das mesas do restaurante.
Existem cerca de 800 produtores na região, os chamados Chateaux (que não são necessáriamente castelos), e nos últimos 20 anos a maioria deles foi modernizada – tanto no campo quanto no tratamento industrial.
No início da década de 90 surgiu o Chateau Valdandraud, o primeiro “microcuvée” de Bordeaux. Também chamados “vinhos de garagem”, os microvuvées são vinhos de autor, produzidos em tão pequenas quantidades que poderiam ser feitos até mesmo na garagem. Em 2012 o Chateau Valadraud, um vinho de garagem, se transformou num premier cru.
De maneira geral o vinho Saint-Émillion utiliza uvas Merlot (principalmente) as Cabernet Franc e Sauvignon, além de um pouquinho de Petit Verdot e Malbec/Pressac.
É menos seco e mais “redondo” do que os Médoc, e exige menos tempo para amadurecer – uns 4 a 8 anos para a maioria dos rótulos. São prazeirosos de beber porque são mais leves e relativamente mais acessíveis do que outras denominações Bodeaux. Eu pessoalmente prefiro vinhos Saint-Émillion a Médoc.
A classificação de vinhos Bordeaux foi criada em 1855, mas os vinhos Saint-Émillion ficaram de fora e só ganharam uma classificação própria em 1955. É uma das mais complicadas, polêmicas e confusas e prometia ser revisada de dez em dez anos acompanhando a evolução dos principais châteaux pelo Syndicat Viticole de Saint-Émilion, que segue severos critérios de qualidade e consistência, prestígio e preço dos vinhos.
A mais recente revisão foi feita em 2006, muitos produtores não concordaram, o assunto acabou na justiça. Dois anos depois foi promulgada uma nova classificação, selecionando dezoito Premiers Grands Crus Classés e sessenta e quatro Grands Crus Classés. Mas o termo Grand Cru Classé em Saint-Emilion na prática não significa o mesmo que se imaginaria de um Médoc.
Para horror dos produtores de Saint Emillion, muitos especialistas dizem que entre esses esses sessenta e quatro châteaux classificados em 2012 talvez só uma dúzia faça jus ao título, entre eles os produtos dos châteaux Berliquet, Pavie Decesse, Fonroque, Fombrauge, Clos de l´Oratoire, Couvent des Jacobins, La Dominique, Grand Mayne, La Serre e Clos des Jacobins.
Dois dos mais caros vinhos da região de Bordeaux, os Châteu Petrus e Le Pin, são da região da denominação Pomerol (veja no mapa, acima), mas continuam sem classificação oficial. Isto mostra que na verdade a classificação official ajuda, mas não é imperativa para o sucesso de um vinho. Veja o preço das várias safras dos Petrus e Margaux na tabela abaixo – um Petrus 1945 atinge o preço de 10 mil Euros em Bordeaux, imagine aqui!
Não posso beber um vinho com esse preço (ainda…), mas posso beber um “parente” dele e dizer que vi onde ele nasceu: numa maravilhosa região chamada Saint-Émillion. E falei com os “padrinhos” dele na Maison du Vin – veja foto abaixo.
Um brinde a isso caro leitor.
(*) Rogerio Ruschel – rruschel@uol.com.br– é jornalista de turismo e consultor especializado em sustentabilidade; foi a Saint-Émillion por conta própria, e por isso não faz propaganda disfarçada de rótulos e escreve com independência.

2 Comentários


  1. ALÔ ROGÉRIO:
    APESAR DO CONHECIMENTO ÓBVIO QUE VOCÊ DEMONSTRA NA SUA POSTAGEM, VOCÊ COMETE UM ÊRRO COMUM A MUITA GENTE QUE NÃO É INICIADA EM GEOGRAFIA. O RIO “GIRONDE” NÃO EXISTE. PONTO. A GIRONDE É UM ESTUÁRIO, POR SINAL O MAIOR DA EUROPA, ESTUÁRIO ESSE COMUM A DOIS “FLEUVES”, O DORDOGNE, QUE É UM RIO FRANCÊS POR INTEIRO, E O GARONNE, UM RIO INTERNACIONAL QUE NASCE EM TERRAS ESPANHOLAS, OK. A GIRONDE TAMBÉM É UM DEPARTAMENTO FRANCES, QUE LE O NUMERO 33, OK?
    FLEUVE+ RIO PRINCIPAL, QUE TEM ESTUÁRIO
    RIVIÈRE- RIO AFLUENTE
    AO SEU INTEIRO DISPOR
    ALVARO DE CAMPOS MARTINS

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