Fazenda dos Cayres, em São Bernardo do Campo: o elo perdido da vinicultura portuguesa no Brasil?

Tempo de leitura: 9 minutos

Por Rogerio Ruschel (*)

Arqueólogos encontraram resquícios de uma fábrica de vinhos artesanais da primeira metade do século XX no sítio arqueológico Chácara Cayres, no município de São Bernardo do Campo, distante 20 quilometros de São Paulo, a maior metrópole da America Latina. O proprietário Aurélio Fonseca Fernandes Cayres, português dos quatro costados, utilizava a chácara para lazer familiar mas produzia uva e vinho com tecnologias importadas: experiência portuguesa, barris de carvalho frances, rolhas do Alentejo e garrafas européias de grés. De acordo com os arqueólogos, a adega mostra resquícios de ter possuído até 32 barris e quatro tonéis (veja imagens acima) e os vinhos produzidos poderiam ser – pelo menos na intenção – do tipo “Douro” e também o famoso “Vinho Verde” português. Seria o elo perdido da vinicultura portuguesa no Brasil?

Pesquisa de Graciela de Souza Oliver (UFMG) publicado na Revista Brasileira de História no. 54 baseado em trabalhos do engenheiro Julio Inglez de Souza (livro “Origens do vinhedo paulista”, de 1959) e do médico e viticultor Luis Pereira Barreto (artigos técnicos publicados entre 1896 e 1900 na Revista Agrícola) – de onde retirei a ilustração acima de uma máquina de amassar uvas – identifica produção vinícola em cerca de 30 municípios paulistanos entre 1880 e 1900, especialmente ao longo das ferrovias Mogiana, Paulista e Sorocabana. Entre eles estão São Roque (que cresceu bastante em qualidade e importância) e São Bernardo do Campo, mas não se sabe se por causa da Chácara Cayres; por isso por enquanto podemos considerá-la como um “elo perdido”.
Se você pensa que foram os italianos que “inventaram” a vinicultura no Brasil, anote: foram os portugueses. Os portugueses tinham tudo para ser os grandes produtores de vinho em nosso país, até porque tem grande experiência – se produz e consome vinho em Portugal há pelo menos 2.500 anos. E são grandes consumidores: nas treze caravelas que partiram de Portugal com Pedro Alvares Cabral e chegaram ao Brasil em 1500 (veja acima), estavam pelo menos 65 mil litros de vinho para consumo dos marinheiros!
Além disso fique sabendo que foram os portugueses que introduziram a uva em nosso país; considera-se o donatário da Capitania de São Vicente, o português Martim Afonso de Sousa em 1532 o primeiro vinicultor em terras brasileiras, ao plantar videiras vindas da Ilha da Madeira no litoral paulista – infelizmente com pouco sucesso devido às condições climáticas (veja as Capitanias na imagem acima). E cá prá nós: considerando a ilustração abaixo, do século XVII, seria mesmo um milagre conseguir produzir bons vinhos no então selvagem litoral paulista.
Não quero ser mórbido, mas numa época em que os moradores locais eram antropófagos, os indios poderiam “harmonizar” cozido de visitantes estrangeiros ou de indios de outras tribos com “vinho parecido com português”. A ilustração abaixo mostra o aventureiro alemão Hans Staden ao fundo, de barba, observando os tupinambás fazendo um churrasquinho de inimigos no litoral paulista em torno de 1550 – mas parece que não tem ninguém fazendo um brinde com vinho…
Mas os portugueses optaram por cultivar cana de açúcar especialmente no Nordeste, com mão de obra escrava, não só porque existia grande mercado internacional para o açúcar e porque a cachaça era muito bemvinda nos eventos sociais, mas também por questões de estratégia de política interna. É que para garantir a comercialização de seu vinho para o Brasil e evitar uma eventual concorrência, Portugal proibiu a fabricação de vinhos na colônia entre 1789 até 1808, ano da transferência da coroa portuguesa para o Brasil. Isso permitiu que muitos nobres ficassem ricos exportando enormes toneis de vinho português para o Brasil, como mostra o desenho de Debret de 1830, abaixo.
Hoje pode-se considerar essa decisão um erro estratégico, mas como saber que o Novo Mundo (na época Tão, Tão Longe) poderia se tornar um grande produtor mundial de vinho nos idos de 1780? Como registro histórico deve-se dizer que desde 1650 os jesuítas produziam vinhos no Brasil, na região sul do país (e também nas Missões jesuíticas de países do atual Mercosul) mas básicamente para consumo religioso. E por falar em registro histórico, veja abaixo a capa de um folheto orientando os italianos que desejavam emigrar para o Brasil, em 1886.
Mas foi isso que aconteceu: os italianos assumiram a liderança da produção de vinhos em terras tropicais a partir de 1870, mesmo tendo chegado ao Brasil mais de três séculos depois dos portugueses. Junto com a uva e o vinho os italianos trouxeram seu idioma, cultura, música e jeito de ser que caracterizam regiões do Brasil, especialmente a cidade de São Paulo e a serra gaúcha, onde, em Caxias do Sul é comemorada a Festa da Uva. E veja abaixo, uma das contribuições italianas ao Brasil, as beldades eleitas Rainha e Princesas da Festa da Uva de 1934 – um show, não?
Se a família Cayres tivesse continuado o trabalho do Sr. Aurélio depois de sua morte, talvez hoje pudéssemos ter um pequeno e charmoso vinhedo português na Grande São Paulo, algo assim como o pequeno e badalado vinhedo “Clos de Montmartre”, no bairro boêmio e vizinho da igreja Sacre Couer em Paris, com míseros 1.556 m², “engolido” pelo crescimento da capital francesa e que hoje gera receita e prestígio para a Prefeitura de Paris – veja abaixo a foto e leia o post aqui, emhttp://www.invinoviajas.com/2013/05/clos-de-montmartre-o-pequeno-vinhedo/
O vinhedo poderia ser chamado de “Clos de Cayres”. Ou, na melhor tradição portuguesa, poderia ser a “Quinta das Garrafeiras de São Bernardo do Campo”, ou a “Quinta dos Cayres”, ou ainda a “Quinta do Planalto Paulista”… E se você tiver uma sugestão melhor de nome para o vinhedo perdido, por favor envie para compartilhar com outros internautas, ok?

Mas o pequeno e simpático vinhedo português perdido no tempo, na memória dos brasileiros e portugueses e na poeira do progresso da gigantesca metrópole urbana teria uma grande vantagem: estaria ao largo da Via Anchieta, uma rodovia que recebe milhares de veículos por dia em direção ao mais importante porto brasileiro e a algumas das mais concorridas praias do Brasil. Já pensou na oportunidade turística disso?

Para os amigos portugueses

Como In Vino Viajas é prestigiado por muitos leitores portugueses, publicamos a seguir alguns trechos curiosos do artigo que relata os resultados da pesquisa arqueólogica.

“Adegas, garrafas, tinas e tonéis apontam notadamente para a função da Chácara Cayres enquanto vinícola, com a especificidade de que estava reutilizando garrafas portuguesas para engarrafar seus próprios vinhos, os quais, é possível, ganhavam novos rótulos em papel (veja abaixo).

As garrafas, por sua vez, deveriam ser adquiridas de um único fornecedor de usados (que as obtinha de fontes que importavam vinho do norte português), figura conhecida em outras épocas como ‘garrafeiro’, denominação que, no início do século XX, era atribuída às pessoas que se dedicavam a comercializar contentores de bebidas descartados – veja abaixo.
As marcas nas garrafas indicam que o importador no Brasil as comprava de fabricantes localizados no norte de Portugal, como Aveiro e o distrito de Vila Nova de Gaia, área conhecida mundialmente pela produção de vinho do Porto (veja abaixo).
Ressalta-se que a região de Aveiro, em cujo subsolo abundam jazidas argilosas, é também uma área tradicional de produção cerâmica em Portugal, quer no que se refere à olaria popular vermelha ou preta, quer no que toca à faiança e porcelana. Assim, as garrafas de ‘grés salgado’ (salt-glazed) foram produzidas para a demanda local de contentores de vinho, exportadas para diversas partes do mundo. Claro está que os produtores não concebiam, no entanto, as dimensões alcançadas na relação entre usos pretendidos e usos reais que estes artefatos alcançaram.
Os selos das garrafas também apontam para a produção e exportação do ‘vinho verde’, que advém de uma região ainda mais específica de fabrico, igualmente no norte português. O ‘vinho verde’, branco ou tinto, é assim denominado devido às características edafoclimáticas do local onde é produzido, tendo uma concentração de ácido málico superior ao que é frequente encontrar em outras regiões de Portugal.
Por que as garrafas, teoricamente destinadas ao consumo de um produto, estariam acumuladas às centenas na adega de um imigrante português em São Bernardo do Campo, no Brasil? A presença desses artefatos permite tecer considerações em torno do reuso de objetos e das táticas conjugadas pelos consumidores para burlar os problemas que surgiam no dia-a-dia. Permite, ainda, aventar questões sobre os desafios, para contextos brasileiros, das datações relativas a partir das barras cronológicas estabelecidas por South nos anos 1970.”

Para ler na íntegra o artigo que foi publicado no Volume 8, número 1 do Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi de Ciências Humanas, de Belém, Pará, em janeiro de 2013 acesse – http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1981-81222013000100003&script=sci_arttext#end

Imagens da Zanettini Arquelogia, Rogerio Ruschel ou pesquisadas em outras fontes.
Este post é dedicado ao jornalista de ciência e tecnologia Carlos Henrique Fioravanti, um dos profissionais brasileiros mais premiados, que nos honra como leitor do In Vino Viajas e enviou o link da pesquisa. 
(*) Rogerio Ruschel é enófilo, jornalista, viajante inveterado e aprecia muito – mas muito mesmo – vinhos portugueses.

 

 

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