Rota do Vinho Ribeira Sacra, Galícia: turismo assustador na vindima mais perigosa do mundo

Tempo de leitura: 5 minutos

Por Rogerio Ruschel (*)

A inclinação é de quase 100 graus – um pouco mais do que um angulo reto – e você tem nas mãos um engradado grande e pesado cheio de cachos de uva. O chão é de terra escorregadia ou de pedras que podem machucá-lo ou se soltar a qualquer momento. Você pode estar com a cabeça nas nuvens, mas os pés tem que estar firmes no chão porque se cair vai rolar uns 40 metros ou mais, até chegar no rio!

A foto acima, das ladeiras dos vinhedos de Alandi, sobre o rio Sil, dá uma idéia ao declividade.
Este é o cenário de grande parte dos vinhedos da Denominação de Origem (DO) Ribeira Sacra, na Galicia, região espanhola no noroeste do país, em torno do rio Minho, perto da fronteira com Portugal (veja o mapa abaixo). A DO atinge a área rural dos municipios de Portomarín, Paradela, O Saviñao, Pantón, Monforte de Lemos, A Pobra do Brollón, Quiroga, Ribas do Sil, Taboada, Chantada, Sober y Carballedo (este na Provincia de Lugo) e A Peroxa, A Pobra de Trives, Manzaneda, A Teixeira, Castro Caldelas, Parada do Sil, San Xoán de Río y Nogueira de Ramuín na Provincia de Ourense.
Considerada uma das vindimas mais perigosas do mundo (se não a pior delas), a DO Ribeira Sacra é também conhecida uma das mais bonitas do mundo (dá para ver pela foto acima) – e seus vinhos – tipos Ribeira Sacra ou Ribeira Sacra Súmmum – são comparados por especialistas franceses a produtos de qualidade similar a bons rótulos de Bordeaux e Borgonha, embora, é claro, os espanhóis os achem melhores, evidentemente…
Atualmente cerca de 3.000 viticultores trabalham em 1.200 hectares de vinhedos que se espalham por 5 sub-zonas definidas pelo Consello Regulador da D.O. Ribeira Sacra, criado em 1996. Mas a tradição é antiga: Ribeira Sacra vem produzindo vinhos desde o tempo dos romanos, há mais de 2.000 anos; na Idade Média os monges difundiram o cultivo e no século XX finalmente a produção se profissionalizou.
O território é definido por uma bela paisagem de ladeiras íngremes com terras e pedras, muitas pedras, formadas pelos canyons dos rios Minho (ou Miño, em espanhol) e Sil e seus afluentes menores pontuadas por igrejas, capelas e monastérios espalhados pelas comunidades e estradinhas rurais onde se comem especiarias deliciosas. Nas duas Rotas do Vinho Ribeira Sacra (norte e Sul) estão bodegas, vinhedos, alojamentos rurais, restaurantes, o Parador de Turismo de Monforte, o Castelo de São Vicente (abaixo), o Centro do Viño da Ribeira Sacra, o Mosteiro de Santo Estevo de Ribas de Sil (abaixo) e o Museu Etnográfico de Quiroga entre outras atrações.
O terroir tem como componentes o clima atlântico mediterrâneo; a presença de dois rios como agentes termorreguladores; pouca chuva; solo granítico ou xistoso; inclinação em terraços que favorecem a drenagem e muita insolação nas ladeiras.
Neste solo são plantadas uvas regionais e pouco conhecidas dos que preferem vinhos franceses e italianos mais comuns: as tintas (Mencía, Brancellao, Merenzao, Sousón, Caíño Tinto e Tempranillo) e as brancas (Godello, Albariño, Loureira, Treixadura, Dona Branca e Torrontés). Para o enquadramento na DO podem ser utilizada também pequenas percentagens das uvas Garnacha Tintorera e Mouratón. Na foto abaixo cachos da uva Mencía.
Em recente reportagem o jornal britânico Daily Mail destacou o risco dos agricultores e dos turistas, já que entre setembro e novembro é a época da colheita. O trabalho é de um esforço incrível, não só para manter o equilíbrio com caixas pesadas, mas também para evitar torcer ou quebrar tornozelos ou os pés por causa da inclinação. As caixas têm que ser levadas a pé ou por elevadores mambembes (veja abaixo) até o rio para serem transportadas – e é claro, com extremo cuidado para não amassar ou perder o frescor!
É realmente um trabalho heroico e complicado que continua inclusive nas adegas, como você pode ver na curiosa foto abaixo, na qual o produtor está mexendo no mosto. E por falar em heroico, anote: a DO Ribeira Sacra é parte integrante de um projeto turístico denominado “Viticultura heroica” que abrange Portugal e Espanha. O projeto “Viticultura heroica”, vem sendo realizado com recursos de um programa europeu de colaboração transfronteiriça e se baseia em raizes culturais e não em questões politicas, como divisão de paises. Mas este belo projeto será apresentado em outro post aqui no In Vino Viajas.
Por enquanto temos que ficar atentos para não escorregar nas ladeiras inclinadas. E mesmo que a cabeça se sinta nas nuvens, temos que  manter os pés firmes no solo.
E para encerrar, uma dica prá deixar você com água na boca: com a chegada do outono europeu, a partir do fim de outubro começou a ser operada uma trilha de caminhada de 9 KM, com uma guia especializada no ecosssitema na região, com partidas aos sábados da igreja de Santo Estevo de Ribas de Miño, na foto abaixo.

Para saber mais: http://rutadelvinoribeirasacra.org/por-que

Veja aqui no In Ivo Viajas outras rotas de vinho da Espanha – digite Espanha no espaço Pesquisar à esquerda embaixo da barra verde do título do bog.

(*) Rogerio Ruschel é jornalista, enófilo e vai utilizar cordas quando for fazer a colheita na Ribeira Sacra. Fotos: jornal Daily Mail, Getty Images, site da Rota do Vinho Ribeira Sacra e outras fontes.

 

2 Comentários


  1. Gostaria mesmo é de tirar uma dúvida; nas fotografias as pessoas estão fazendo a colheita de cima para baixo, parecendo que as uvas estão rente ao chão. Então a pergunta é; qual a altura dos parreirais ? Como são sustentados os ramos?

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *