Um Feliz Ano Novo se faz com união, paz e qualidade de vida; uma mensagem de Carlo Petrini, do Movimento Slow Food

Tempo de leitura: 5 minutos

 

Por Rogerio Ruschel (*)
Em maio de 2010 Carlo Petrini, fundador em 1986 do Movimento Slow Food, proferiu um discurso na abertura do IV Congresso Internacional do movimento, que permanece inabalávelmente atual. In Vino Viajas acredita que a cultura do vinho e a qualidade de vida nas comunidades rurais está profundamente ligada aos valores do movimento Slow Food (e de seu filhote Cittaslow, veja abaixo) e por esta razão publica a mensagem de Petrini a seguir. Além do que esta mensagem é uma excelente reflexão para o Natal e para o Ano Novo no qual todos queremos construir qualidade de vida.
O discurso de Carlo Petrini
“Nosso recurso é a visão política fora das normas tradicionais e dos padrões de política tradicional: as categorias esquerda e direita estão desatualizadas, já não significam mais nada. A novidade está no mundo da holística: velhas categorias de pensamento baseado no mecanismo, o reducionismo, agora são dramaticamente ultrapassados pelos acontecimentos atuais devido às crises econômicas e culturais.“

 

“A interpretação científica danificou o mundo agrícola e a produção de alimentos, e esquecemos que os fundamentos da comida são os mesmos que a vida. O modelo baseado no consumismo crescente provou seu fracasso e o que ficou demonstrado com clareza profética por Pier Paolo Pasolini em sua carta q Italo Calvino, em 1975. Mesmo a expressão “desenvolvimento sustentável” é um oximoro (um oximoro é uma figura de linguagem que aproxima dois antônimos, por exemplo, “silêncio ensurdecedor”). Precisamos de uma visão holística, a separação suficiente entre o mundo da produção e o mundo do consumo.” (Slow Food propõe a valorização dos alimentos produzidos localmente, comprados em mercados públicos, como na foto abaixo).

 

“Hoje estamos diante de uma grave crise de entropia que precisa de soluções revolucionárias. (entropia é um conceito da física – a parcela de energia que não pode mais ser transformada em trabalho). 
Slow Food vai contribuir para o novo humanismo a partir de quatro conceitos básicos :
Qualidade do trabalho – alternar entre otium e negotium (o ócio e o negócio), trabalhar sem perder o sentido das coisas e da vida. As pessoas não têm medo de trabalhar duro, mas têm medo de alienação.
Fortalecer reciprocidade – está posta em movimento uma nova energia através da solidariedade; alguns modelos já existentes são o da Agricultura Apoiada pela Comunidade (orgânica) ou grupos de compra cooperados. Devemos nos inspirar na generosidade do camponês e exigir uma contra-partida da civilização urbana. Bom e belo é o direito de todos – a batalha política é feita sobre isso, o compartilhamento, o justo, é a nova missão do Slow Food para os próximos quatro anos.
Quebrar o monopólio do conhecimento que ignora a oralidade e a cultura rural –  precisamos dar o status adequado para as línguas indígenas e dialetos, e isso sem mencionar o reconhecimento histórico da língua materna como um elemento-chave para a construção de idioma nacional que nos deixou o trabalho de Antonio Gramsci.”
Carlo Petrini deixou para os delegados do VII Congresso uma metáfora muito rica: “Estamos em um momento difícil, em um frio de inverno no qual nos devemos armar com um bom cobertor. Pense em uma colcha de retalhos . É composta de pequenos pedaços de tecido, que sozinhos, não conseguem cobrir qualquer coisa . Mas se combinarmos essas peças de cores diferentes, com uma linha forte, teremos um cobertor quente e bonito. As comunidades da Terra Madre são os pedaços de pano. Slow Food é a discussão. Que sejamos o fio para as comunidades e seus territórios e realizemos juntos a nossa utopia concreta. Que neste Congresso nasça um novo agente politico que modifique a realidade concreta do pais.” (O Movimento Cittaslow, inspirado pelo Slow Food hoje está em centenas de cidades como Biskupiec, na Polônia, na foto abaixo).

 

O Movimento Slow Food foi criado em 1986 em Orvieto, Itália, pelo italiano Carlo Petrini e se transformou em uma organização internacional atualmente com 100.000 sócios de 150 países que promove a eco-gastronomia, a educação alimentar, alimentos sustentáveis e a agricultura de base local. O princípio é simples: a forma como nos alimentamos tem profunda influência no que nos rodeia – na paisagem, na biodiversidade da terra e nas suas tradições.

 

O Movimento Cittaslow foi criado em 1999 por Paolo Saturnini em Greve In Chianti, Itália (ex-presidente da Associazzione Cittá Del Vino), inspirado no Movimento Slow Food que revolucionou práticas de gestão pública. Em 2012 entrevistei Paolo Saturnini com exclusividade – veja abaixo minha foto com ele, que está de preto. O objetivo do Cittaslow é melhorar a qualidade de vida dos cidadãos a partir de propostas vinculadas ao território, ao meio ambiente, ao protagonismo comunitário e ao uso de novas tecnologias. O inimigo é o estresse, a pressão de valores não naturais, a perda de referências, a pressa; o movimento quer valorizar o território e não apenas ocupá-lo. 

 

Fonte: arquivos do Movimento Slow Food. 
Saiba mais sobre Slow Food e Cittaslow nestes links:
(*) Rogerio Ruschel é jornalista, enófilo e acredita na slow food e em cidades com cittaslow.

 

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