Associazione Vino Libero: um manifesto italiano pela produção de vinhos com identidade, honestidade e sustentabilidade

Tempo de leitura: 7 minutos

Por Rogerio Ruschel (*)

Conheci a Associazione Vino Libero (Associação Vinho Livre) em um restaurante da rede Eataly que oferece culinária comprometida com os princípios de qualidade, originalidade e excelência e que no mesmo espaço comercializa produtos italianos com estes valores; empresas como a Vino Libero (veja o logotipo) mantém “corners” nas lojas Eataly, como na foto abaixo. 

Aliás, anote: a Eataly vai abrir uma casa em São Paulo em 2014 (de fato abriu e é um grande sucesso – noa de 2017), e como as mais de 20 lojas na Itália, Estados Unidos, Turquia e Japão, só venderá produtos italianos de alta qualidade, incluindo vinhos “natureba” ou sustentáveis – veja abaixo a fachada da Eataly de Roma, à noite.
No restaurante conheci os vinhos da Associazione Vino Libero que reúne produtores de vinhos comprometidos a aplicar um modelo de agricultura sustentável que seja economicamente viável, ambientalmente responsável e socialmente justo.
Mais do que isso, eles se propõem a praticar uma “agricultura que rompe as divisões entre os diferentes modelos de cultivo (vinhos orgânicos, biodinâmicos ou naturais) porque é um novo modelo, mais adequado às necessidades de produtores e consumidores: um modelo dinâmico”. No vinhedo, na cantina e no comércio.
Atualmente são 12 empresas associadas (veja mapa abaixo), produzindo vinhos tinto, branco, rosé e espumantes com preços entre 7 e 22 Euros no Piemonte, Puglia, Marche Puglia, Sicília, Friuli Venezia, Lombardia, Veneto e Toscana. Os produtos são vendidos pela internet, em restaurantes selecionados e em enotecas (lojas especializadas) de toda a Itália e (aparentemente) com poucas chances de exportação porque tem foco na qualidade e não na quantidade.
Mas o mais interessante é o que está por trás das garrafas e fora das taças: o Manifesto do Vinho Libero, uma declaração de princípios que me lembrou a Revolução Francesa com seus valores de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Veja a seguir, em livre tradução, trechos deste Manifesto.

·      O vinho é o elemento que une a terra ao céu; um presente maravilhoso que a natureza nos deu para celebrar o desejo de viver, de estar juntos, de compartilhar o prazer de uma reunião com amigos e boa comida.

·      O vinho é uma ocasião de celebração e alegria, de consumir um produto saudável e consciente, o que aumenta as características de qualidade  bem como as tradições, história e origem, premissa para conhecer os produtores, atores e artistas de uma atividade que muda a cada diferente colheita.

·      O vinho é, tanto para aqueles que o produzem quanto para aqueles que o bebem, o resultado de um legado de trabalho duro e conhecimento, empírico e científico, acumulado ao longo do tempo e replicado em cada colheita, sempre a mesma coisa do ponto de vista da identidade, mas em constante mudança e sempre tão diferente em sabor. (abaixo, vinhedo do associado de Fontanafreda)

·      O vinho é o respeito à diversidade e curiosidade, o desejo de descoberta de sabores, culturas e territórios, a comunicação com o natural.

·      O vinho é poesia, é uma expressão de arte que transforma a matéria-prima em um produto simples, mas repleto de complexidade.
·      O vinho é a liberdade! É um produto Livre porque
·      Nasce livre e se expressa em um ambiente de produção feita de regras estritas, mas simples e claras
·      Livre para ser representado por muitos produtores honestos que acreditam no que fazem, expressão consciente de um mundo que tem suas raízes profundas na tradição (abaixo, vinhedo do associado Tombolini)
·      Livre para expressar os valores de uma cultura material milenar, do trabalho virtuoso e ser uma fonte de redenção da pobreza cultural, moral e material que muitas vezes tem caracterizado o mundo agrícola
·      Livre para representar um retorno justo para aqueles que trabalham em uma cadeia de produção que precisa ser comercialmente transparente
·      Livre de inveja e competição que provocam danos inúteis e prejudiciais, do oportunismo estúpido, do paroquialismo idiota
·      Livre da utilização gratuita de química exagerada e errada – na vinha e na adega – livre de poluentes e embalagens excessivas
·      Livre para estar em equilíbrio com o meio ambiente e para expressar a qualidade e saúde
·      Livre de informação parcial e tendenciosa, da falsidade e hipocrisia, da manipulação
·      Livre de mediocridade, a própria e a dos homens, interesses partidários e sindicatos , livre de burocracia excessiva
·      Livre da violência dos desonestos, dos constrangimentos da moda, dos padrões de consumo e combinações
·      Livre da tirania de redes de varejo, da arrogância dos intermediários, do viés de líderes de opinião e jornalistas – quando são tiranos, arrogantes e preconceituosos
·      Livre dos que sofismam, que mistificam, que manipulam, que o transformam no que ele não é 
·      Livre para falar a língua nativa, para expressar seu caráter e a identidade que retira da área, do solo, após a uva da vinha
·      Livre para crescer em importância e autoridade nas safras corretas, a permanecer em repouso na garrafa na adega durante o tempo necessário para desenvolver todo o seu potencial
·      Livre para ir para dentro da garrafa para doar emoção
·      Livre para ser bebido!

Saiba mais em http://www.vinolibero.it

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(*) Rogerio Ruschel é jornalista, enófilo e apoia o Manifesto da Associazione Vino Libero.

 

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