Vinhedos e vinhos biológicos, orgânicos, biodinâmicos e naturais: preservando a vida do terroir

Tempo de leitura: 6 minutos

 

Por Rogerio Ruschel (*)

Para reagir às mudanças climáticas (veja http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/01/os-impactos-do-rechauffement-de-la.html)  muitos viticultores e vinicultores estão investindo em Agricultura Racional, Cultura Biológica ou Orgânica, principios de Biodinâmica e vinhos Naturais. A idéia é proteger e enriquecer a vida do terroir, porque o solo tem uma grande quantidade de formas de vida e tudo tem que ser harmônico (foto acima, algumas das 3.000 espécies de uvas, e abaixo, de Pascal Marchand).

 

Temos vinhos assim no mercado há mais de 30 anos e a produção de vinhos mais ecológicos vem crescendo com regularidade, embora ainda signifique muito pouco, menos de 5% do total mundial. A Enoteca Saint Vin Saint, na Vila Nova Conceição, em São Paulo (veja abaixo, a chef Lis Cereja), tem um menu somente com vinhos orgânicos e biodinâmicos que harmonizam muito bem com as comidinhas interessantes da casa.
O crescimento é lento, mas definitivo. Em uma entrevista publicada no “El Correo del Vino”, da Espanha, a viticultora Pilar Higuero repondeu a uma entrevista da escritora Mar Galván que “El cambio climático no es futuro, es presente. No sé cómo verán las cosas otros agricultores, pero, con respecto a la viticultura, cada vez son más los que se acercan a esta forma de trabajo, buscando sostenibilidad y una mayor calidad en sus vinos.” Pilar Higuero é viticultora, criadora de vinhos como o Pita Cega (foto abaixo – foto dela mesma) do Lagar de Sabariz, da Galicia, uma das mais badalados bodegas com práticas biodinâmicas da Europa.

 

O crescimento é definitivo, mas é arriscado. Nicolas Joly, produtor do premiado vinho branco Coulée de Serrant, em Savennières, Pays-de-Loire, França, e autor de livros considerados fundamentais sobre o assunto, diz que de vez em quando é ridicularizado por adotar práticas semi-esotéricas da biodinâmica – como deixar o “mato” crescer no vinhedo, foto abaixo. E complementa: “Praticar a biodinâmica significa também aceitar a familiaridade com outra linguagem, com outros métodos e presenciar, durante os primeiros anos, uma queda de produção ou um risco maior de doença. A reconversão não afeta unicamente a propriedade agrícola, mas também o indivíduo cuja motivação deveria ir além de simples objetivos comerciais.”

 

A existência de legislação específica é um dos fatores que pode acelerar este processo. Paises europeus e outros produtores de vinho do chamado Novo Mundo como os Estados Unidos, Chile, Austrália e África do Sul já tem normas específicas sobre vinicultura orgânica e paises como Argentina, Uruguai, Espanha e França já tem bons produtos nestes segmentos – com vinhos tintos, brancos e rosé.

 

As feiras especializadas estão ficando importantes, como a espanhola FIVE – Feria Internacional del Vino Ecológico, que vai ter sua 4a. edição realizada em Pamplona, Espanha, em maio de 2014 e a Bio 2014 Vintage (Millésime bio 2014 em francês), o maior evento de vinhos orgânicos do mundo, cuja mais recente edição, no fim de janeiro de 2014, reuniu mais de 780 expositores, produtores ou compradores de 12 países na Europa, América do Sul e África na cidade francesa de Montpellier. Aliás, na Europa muitos produtores estão certificando até mesmo o processo de gestão das vinícolas, de acordo com a Norma UNE166002 ou outras.

 

No Brasil ainda não temos nenhum legislação específica (para vinhos). Segundo consta são poucos os produtores orgânicos certificados no país e tínhamos até o ano passado apenas um pequeno produtor de vinho biodinâmico brasileiro, a Vinícola Santa Augusta, de Videira, na Serra Catarinense, que colhe uvas a 1.290 metros de altitude (foto abaixo) para produzir o vinho Imortali – empresa, aliás, de duas mulheres.

 

É em Santa Catarina também, na Praia do Rosa, Imbituba, que a Dominio Vicari, pequeno produtor brasileiro de vinhos naturais também liderado por uma mulher, Lili Vicari (foto abaixo), vem obtendo reconhecimento para seu Riesling itálico e o Merlot, produzidos com uvas que vêm de Monte Belo, na serra gaúcha.

 

Conheça um pouco sobre estes conceitos.
Agricultura Racional: É uma espécie de primeiro estágio, no qual todos os produtos químicos são banidos até o limite máximo. Normalmente se faz o possível para que a agricultura seja 100% natural, mas no caso de possível perda de colheita as atitudes são tomadas com responsabilidade. Leva-se em conta que alguns lugares não permitem uma cultura 100% natural, por problemas climáticos ou mesmo da terra. Veja abaixo foto do vinhedo com um lago no Lagar de Sabariz, agricultura racional e biodinâmica.

 

Cultura Biológica ou Orgânica: Na agricultura orgânica, a ênfase está em manter um solo saudável e biologicamente ativo. Nos vinhedos isso significa o uso de culturas de cobertura em vez de herbicidas, e fertilizantes naturais, como esterco, em vez de artificiais. Na maioria dos países os vinhos produzidos a partir de uvas ecológicas, biológicas e orgânicas são exatamente a mesma coisa. A viticultura orgânica foi legalmente reconhecida na França em 1981; conhecida como “Agriculture Biologique”. É a mais enquadrada em termos de legislação e utiliza os princípios de que a natureza cria as doenças e os remédios. O segredo da agricultura orgânica está no tratamento da uva, que chega até o momento da colheita sem ter recebido produtos químicos. A produção de vinhos ecológicos passou a ter uma norma única e exclusiva para todos os paises europeus a partir da colheita de 2012.

 

Biodinâmica: Para muitas pessoas isto está na fronteira entre o misticismo e a agricultura, mas o fato é que os principais vinhos produzidos com principios biodinâmicos estão entre rótulos de grande valor comercial, como grandes Bordeaux. A biodinâmica nasceu nos estudos do austríaco Rudolf Steiner divulgados entre 1894 e os anos 1920. Segundo seu livro “The Spiritual Foundations of Biodynamic Methods” o cuidado, tanto na vinha quanto na adega, é regido pela posição dos planetas e principalmente pelas fases da lua. A utilização de produtos agroquímicos e fertilizantes é absolutamente proibida, mas algumas misturas (conhecidas como preparos biodinâmicos) são permitidas. Como a terra está ligada aos outros elementos da natureza, o fogo, a água e o ar, o trabalho no vinhedo é feito seguindo ciclos lunares, e todo o meio ambiente em volta é rigorosamente tratado para que o ecossistema esteja em harmonia. As vinhas são vistas realmente como um organismo vivo.
Vinho Natural: é similar à Cultura Biológica ou orgânica, da qual se diferencia por não usar sulfito para conservar os vinhos. Na verdade os produtores de vinhos naturais pregam, além da cultura orgânica nas vinhas, que todo o processo de fermentação seja baseado somente no suco da uva, sem nenhuma interferência humana. E só utilizam sulfitos na hora de engarrafar seus fermentados  – principalmente para aumentar a resistência no transporte – e sempre em quantidades muito pequenas, que praticamente desaparecem no produto final. Não existem certificações oficiais para esse tipo de produção.

 

Para saber mais sobre os vinhos brasileiros aqui citados veja o blog da Madame do Vinho – http://madamedovinho.blogspot.com.br/2013/11/biodinamico-e-brasileiro-sim-senhor.html

(*) Rogerio Ruschel é jornalista, enófilo e consultor especializado em sustentabilidade socioambiental.

 

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