Frascati, o vinho de Roma, e suas “ruas de uvas” nas colinas de Alba

Tempo de leitura: 5 minutos

 

Por Juliana Winkel  (*)
Exclusivo para In Vino Viajas – Ao se afastar um pouco do centro de Roma, na direção sudeste, de repente se vê a paisagem mudar. As ruas movimentadas dão lugar a vielas estreitas que convidam aos morros vizinhos. A subida não decepciona: em minutos, a paisagem passa a mostrar centenas de videiras a perder de vista: são as ruas de uvas, nas colinas de Alba, em uma região denominada de Castelli Romani onde estão 15 comunidades como Frascati, Castel Gandolfo, Marino e Rocca di Pappa. Demarcada pelas colinas Albanesas, a região tem origem vulcânica e é muito bonita – veja foto acima. 

 

Estamos nos aproximando de Frascati, cidade vizinha à capital do país, que empresta seu nome ao vinho típico da região – e um dos mais tradicionais da Itália. O sabor e aroma peculiares dos vinhos Frascati, considerados ideais para pratos leves como saladas ou frutos do mar, têm origem no solo vulcânico aliado ao clima mediterrâneo, levemente mais frio que o da capital. Acima, um pouco do bucólico do campo; abaixo, Veja uma vista da vila de Frascati e a mansão Aldobrandini, na praça central, uma das atrações turísticas da cidade. 

 

A história de Frascati remonta à época antiga e sua arquitetura nos faz sentir de volta a um burgo medieval. Bem antes disso, séculos atrás, os tonéis de vinho eram processados e armazenados em cavernas escavadas na rocha vulcânica, que lhes garantia a temperatura ideal. Hoje, o local é usado para turismo histórico e para produções de TV e cinema como esta foto abaixo, da Tenuta di Pietra Porzia.

 

Bem ao lado de Frascati, em 493 a.C., foi travada a célebre batalha do Lago Regilo, responsável pela trégua na rivalidade entre a República Romana e outros povos latinos – e durante a qual os romanos teriam contato com a ajuda dos deuses Castor e Pólux, vindos do Olimpo para assegurar sua vitória.  Abaixo os jardins da Villa Lancelotti em Frascati, outra atração turística.

 

Lendas à parte, no seu entorno, está a atividade agrícola responsável por sua fama dentro e fora do país: os vinhos feitos com as uvas Malvasia di Candia, Trebbiano, Greco e Malvasia del Lazio – muitas delas antigas, como a da foto abaixo.

 

Há mais de 3 mil anos a região é responsável pelo abastecimento vinícola da capital e contrasta, com sua rotina agrícola, a efervescência da cidade. Ali o dia começa por volta das cinco horas da manhã, para que se tenha tempo de colher as uvas antes do período de maior calor, que no verão pode chegar a 37º Celsius.

 

Por volta das 11 horas, já é preciso ter a colheita pronta para o processamento do vinho. “Tudo é realizado no horário e clima certos”, explica Michele Russo (foto abaixo), enólogo de uma das fazendas produtoras da região. a Tenuta di Pietra Porzia. “Dessa forma conseguimos manter o padrão de qualidade sem aditivos químicos”.

 

O cuidado na produção do Frascati, porém, que já viveu momentos de instabilidade. Embora tenha longa história nas montanhas do Lácio, a cidade viu sua reputação vinícola decair há cerca de uma década, devido ao aumento da demanda internacional. “Tentando atender ao mercado, muitos produtores buscaram aproveitar a ‘fama’ aumentando a produção sem o devido planejamento, o que influiu na qualidade”, explica Russo. “Atualmente, estamos voltando às origens do vinho. É claro que não podemos mais fazer tudo artesanalmente, como há séculos – mas respeitamos o ritmo das vinícolas e temos cerca de 30 pessoas trabalhando em todo o processo, a maior parte delas da própria região.” Veja abaixo os tonéis de aço para produção de Frascati da Tenuta di Pietra Porzia.

 

Hoje, diz ele, a venda da produção é dividida igualmente entre o mercado nacional e internacional. “Temos grandes clientes no Japão e China”, comenta. “Existe muito interesse dos chamados ‘mercados emergentes’ pelos produtos tradicionais”. Embora positivos para a produção vinícola, os novos tempos de desenvolvimento também oferecem seus desafios. Um deles é a especulação imobiliária motivada pelo crescimento urbano, que ameaça o espaço essencial para o cultivo de uvas.

 

Outro tem a ver com a mudança de interesse das novas gerações pelo trabalho no campo – um setor que Russo vê, inclusive, como potencial solução para a crise econômica enfrentada pelo país. “Seria importante um maior investimento em conhecimento do trabalho agrícola e nas técnicas de produção do vinho, para que não enfrentemos escassez de mão-de-obra no futuro”. Veja abaixo o selo de garantia da origem Frascati.

 

A própria instabilidade econômica também influencia a dinâmica da produção. “Até alguns anos atrás, fechávamos contratos de fornecimento de vinhos com validade de 5 ou 10 anos. Agora os contratos são firmados anualmente, o que nos assegura o escoamento da safra atual, mas não nos dá garantias sobre as próximas”, afirma. Apesar disso, segundo ele, a produção de vinhos Frascati continua se esgotando a cada estação, sem perdas. O que significa que seu prestígio continua em alta – e que, provavelmente, os sabores do Lácio continuarão encontrando lugar nas mesas do mundo – como os da foto abaixo que podem ser encontrados no Brasil.

 

Apenas como curiosidade: o European Space Agency (ESA) ou  Instituto Europeu de Investigação Espacial (ESRIN), uma das unidades de pesquisa da Agência Espacial Europeia fica em Frascati. As suas responsabilidades incluem o recolhimento, o armazenamento e a distribuição dos dados de satélite aos parceiros da ESA (20 países europeus e alguns observadores) e funciona como centro de tecnologia de informação da Agência.  
(*) Juliana Winkel é jornalista especializada em redação e produção de conteúdo, tendo passado por publicações voltadas à educação, cultura, meio ambiente e terceiro setor. Atualmente vive em Roma, na Itália, de onde colabora para publicações e organizações no Brasil. Imagens de Juliana Winkel, da Tenuta di Pietra Porzia ou arquivo do editor.

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