Um passeio russo na Crimea com 3.000 anos de história, natureza espetacular, palácios imperiais e os famosos vinhos Massandra

Tempo de leitura: 6 minutos

 

Por Vadim Kharlamov (*) texto e fotos
Exclusivo para In Vino Viajas – Vadim Kharlamov é um jovem russo filho de um casal de cientistas que viaja muito pelo mundo, morou no Brasil, e agora vai nos levar para um passeio pela Peninsula da Criméia, com o olhar de quem sempre esteve lá. Com a palavra, Vadim. “A Crimeia é chamada de “Riviera da Europa Oriental” por causa de suas praias limpas e azuladas, pela herança arquitetônica e histórica de centenas de anos e por seus castelos misteriosos. E também pelo fantástico vinho foritificado Massandra (acima, uma visão de vinhedos). A diversidade histórica da Criméia só pode ser comparada com Jerusalém e Constantinopla (Istambul). Inicialmente foi habitada pelos Tauri e depois ao longo dos séculos lá estiveram gregos, citas, sármatas, caraítas, romanos, godos, turcos, bizantinos, tártaros, mongóis, genoveses, otomanos, armênios, russos e ucranianos que deixaram grande herança arqueológica por toda a região.

 

O escritor grego Homero escreveu sobre a Crimeia; lá foi batizado o príncipe russo Vladimir e lá começou a transformação da Rússia ortodoxa. A Criméia também foi motivo e palco de guerra entre a Rússia e os turcos, os britânicos e os franceses (veja abaixo um panorama da Guerra em Sevastopol). Mas o maior desenvolvimento da Criméia foi mesmo com o Império Russo e a União Soviética.

 

Antes dos castelos, vamos falar de vinhos. A vinificação na Criméia começou com os gregos que se estabeleceram na península no século 6 AC. Durante o período dos otomanos o vinho era proibido, mas os turcos cultivavam uvas de mesa. Após a anexação da Criméia pelo Império Russa o Príncipe Potemkin plantou diferentes variedades de videiras adequadas para vinificação nas terra da costa sul da Crimeia e em 1891 Lev Golitsyn (membro da familia real Romanoff) foi nomeado Chefe enólogo da Crimeia e do Cáucaso. Abaixo, vinhedo na região de Sabastopol.

 

Com o dinheiro do Estado nos anos 1890 o Príncipe Lev Golitsyn construiu a primeira fábrica de vinhos no distrito de Massandra, a um custo na época era um recorde – 1 milhão de rublos imperiais (32 milhões de dólares atualmente). Golitsyn comprou os vinhos mais famosos na Europa (que ele conhecia muito bem porque estudou Direito na Sorbonne, em Paris) e desenvolveu uma tecnologia para a produção destes vinhos na fábrica de Massandra.

 

Os vinhos fortificados como xerez e madeira e ficaram melhores que outros e hoje em dia Massandra é sinônimo de vinho fortificado (foto abaixo). Além disso, ele fundou uma fábrica de vinhos espumantes na aldeia de Novy Svet.

 

Após a Segunda Guerra Mundial, Alexander Egorov continuou a vinificação, renovando a produção e criando novos vinhos como o Branco Muscat da Pedra Vermelha, que foi duas vezes eleito o melhor vinho do mundo; o Red Porto Livadia, vinho favorito do último czar russo, há tempos dando medalhas em competições internacionais.  

 

Por causa de seu clima quente, terreno montanhoso e diversidade de solos que criaram condições favoráveis para o cultivo de diferentes tipos de uva, a Crimeia produz hoje cerca de 150 vinhos diferentes entre brancos e tintos, vermutes e conhaques considerados de boa qualidade, além de um espumante tido como referência na Ucrânia e do badalado vinho licoroso de uvas Massandra, do qual a grande produtora é a Massandra Winery (veja abaixo detalhe), sediada em um castelo do século 17 na região de Yalta. Quase toda a costa da Crimeia está envolvida na produção de vinhos.

 

Além do vinho, a Criméia é rica em sua história. Visitando Crimeia o turista pode visitar a fortaleza genovesa do século 14 em Sudak; ver o panorama da defesa de Sevastopol e Mosteiro de St. Clement, do oitavo século. Na antiga cidade de Hersonissos sugiro visitar o Templo de Vladimir e encontrar o lugar de onde o cristianismo foi para a Rússia. Pegue o teleférico (foto de abertura) até a montanha Ai-Petri, visite o Palácio do Khan em Bakhchisaray, dê um passeio no Jardim Botânico em Nikita.

 

Visite o Vorontsov Palace, construido como residencia de verão do Principe Mikhail Semyonovich Vorontsov em 1848, onde Winston Churchill ficou hospedado e o Yusupov Palace, onde morava Joseph Stalin.  
Conheça também o Livadia Palace (Palacio do ultimo Kzar, Nicholas II), onde em 12 de fevereiro de 1945 foi realizada a Conferência da Crimeia e assinado o Tratado de Yalta, pelos mandatários Franklin Roosevelt, Winston Churchill e Jospeh Stalin – além Tsar Nicholas II, que acabou com a Segunda Guerra Mundial e definiu os limites geopoliticos atuais dos paises – veja na foto abaixo

 

A Península da Crimeia faz parte da Ucrânia que foi anexada pela Rússia em Fevereiro de 2014. Desde os tempos dos reis a Criméia era uma parte da Rússia, e até hoje a maioria da população é russa e os moradores da Criméia realizaram um referendo e a maioria pediu que a Criméia e Sevastopol voltassem a ser a parte da Federação da Rússia. Eu conversei com muitas pessoas na Criméia, mas ninguém fala em ocupação. Todo mundo está feliz porque, como eles dizem, “a Crimea voltou para casa”. Abaixo um cenário para alegrar turistas da chamada Riviera da Europa Oriental.

 

A Rússia e a Criméia estão passando por momentos de crise por causa da sanções dos Estados Unidos e da Europa. A crise afetou a vinificação tambem. Um grupo de empresas , “Legend of the Crimea” há um ano vem fazendo acordos com investidores europeus para a compra de equipamentos para a modernização das fábricas de vinho. Tentando resolver o problema das sanções comerciais, a empresas do “Legend of the Crimea” criaram um site para atrair o investimento privado.

 

O site oferece todos os interessados em comprar videira por 300-600 rublos (7,5-15 dólares). Por este valor o participante recebe um certificado e uma videira selecionada com o seu nome. Dois anos após o plantio, a empresa vai convidar os participantes a colher uvas e visitar o passeio pela fábrica e um ano mais tarde, o participante receberá a primeira garrafa de vinho feito com sua uva. Até o final do ano este site será traduzido para o Inglês, e eu vou informar os leitores de In Vino Viajas para que todos tenham a possibilidade de comprar um vinhedo e se tornar um produtor de vinho na Criméia – além de um turista privilegiado, como o da foto abaixo.

 

A Criméia é mar, tem um ar das montanhas que é terapêutico, tem rica diversidade de história e cultura e vinhos famosos. Se algum leitor do In Vino Viajas do Brasil for viajar para a Crimeia, posso ajudar a encontrar as passagens, alojamento ou excursões. Assim posso fazer novos amigos e praticar meu português…”
(*) Vadim Kharlamov nasceu em Tashkent, capital do Uzbekistão, e mora em Dubna, na Russia. Morou um ano no Brasil e aprendeu Portugues. Algumas fotos são do arquivo de In Vino Viajas, ou capturadas na internet.

 

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