Veja como a Città del Vino promove o território, a identidade e a excelência para manter os vinhos e o enoturismo da Itália no mapa dos melhores do mundo

Tempo de leitura: 12 minutos

Por Rogerio Ruschel (*)
Exclusivo – Entrevista exclusiva de Paolo Benvenuti, diretor da Città del Vino, a Rogerio Ruschel.
Meu prezado leitor ou leitora, quero te apresentar Paolo Benvenuti, um grande sujeito e uma conhecida personalidade da vitivinicultura italiana e europeia, diretor executivo há muitos anos da Associação Italiana de Cidades do Vinho – a Città del Vino – a maior e mais eficiente associação de produtores de vinho do mundo. Conheci Benvenuti pessoalmente em um congresso de enoturismo em Portugal, quando participei de uma mesa de debates junto com ele, mas já conhecia a Città del Vino e os leitores também, porque In Vino Viajas já publicou várias pesquisas produzidas por eles (veja no fim da reportagem). 

 

A Città del Vino reúne milhares de pessoas e organizações em municípios que tem sua economia fortemente influenciada pela vinicultura na Itália. Entre seus associados estão 560 prefeituras, centenas de produtores responsáveis por 80% dos vinhedos italianos com certificação de origem (200.000 hectares DOC e DOCG), a maioria de pequeno porte; 4.052 hotéis que empregam 142.000 pessoas; 1.500 hotéis-fazenda de agriturismo com 18.000 camas; 189 campings e locais para campismo; e centenas de restaurantes, bares de vinho, lojas e adegas de qualidade. (Na foto abaixo, Anticoli Corrado, com 943 habitantes, no Lazio, próximo de Roma).

A Città del Vino é uma organização cuja missão é fazer respeitar e promover a identidade do vinho italiano, em um ambiente de excelência técnica. Como nós sabemos, o vinho tem identidade própria, construída pela tradição, herdada do território, do terroir, da comunidade e do talento dos que o produzem. Embora produza vinhos comercialmente desde 1875, o Brasil começou a se preocupar com a identidade de seus vinhos apenas há 10 anos, com a busca por IGs e DOCs. Esta inércia, aliás, é uma das causas dos brasileiros terem preconceito contra o produto nacional e também de nosso baixo sucesso internacional: como vinho é um produto cultural e é impossivel querer que outros povos dêem valor a um produto que nós mesmos não valorizamos, só nos resta competir em preço ou encontrar pequenos nichos como o dos espumantes.

Uma organização com o perfil da Cittá del Vino – que trata o vinho como alimento e o posiciona como elemento cultural de uma comunidade e não apenas um produto “de agribusiness” – poderia ser o vetor institucional desta tarefa no Brasil. Então, quando tivermos forças para romper a inércia e unir produtores, prefeitos, hoteleiros, restauranters e lideranças dos trades do vinho, do turismo e da cultura no Brasil num mesmo projeto de longo prazo acima de partidos, regionalismos e outros interesses menores, talvez o modelo organizacional da Cittá del Vino possa nos inspirar.

Os números da Cittá del Vino impressionam. Embora tenha que lidar com milhares de italianos parlantes, normalmente agitados e apaixonados por seu próprio vinho (que sempre é melhor do que o do vizinho), Benvenuti é uma pessoa extremamente calma, com a paciência de quem vive na Toscana e com o sentido de tempo afinado para respeitar os lentos ciclos da natureza e as tradições, como a expressa pela paixão dos italianos pelo minúsculo Cinquecento da foto acima. Com a palavra Paolo Benvenuti.

“Somos uma rede de pequenos municípios que tenta reduzir a parte negativa da globalização.”
 
R. Ruschel – Paolo, quem é a Cittá del Vino?
Paolo Benveanuti – “A Associação Italiana de Cidades do Vinho foi fundada em 1987, um ano após o estabelecimento do Slow Food e do lançamento da primeira edição do Guia de Vinhos italianos. Revendo os anos oitenta e as profundas mudanças que estão ocorrendo na agricultura e viticultura desde lá, “Città del Vino” é o intérprete destas inovações porque tem o objetivo de dar voz aos territórios, as pequenas cidades e a quem está no campo, a fim de torná-los protagonistas do desenvolvimento econômico, levando em conta os valores das comunidades locais, especialmente no domínio dos serviços, a partir de alimentos para o turismo. Somos uma rede de pequenos municípios que tenta reduzir a parte negativa da globalização.“

“A excelência dos vinhos italianos é obtida em pequenas cidades: Montalcino (foto acima), onde é produzido o Brunello, (talvez o mais famoso vinho do mundo) tem apenas 5.000 habitantes; Barolo e Barbaresco, em conjunto, não excede estes números. 80% dos municípios associados a Città del Vino, um total de 500, tem menos de 10.000 habitantes. A vinicultura dá força às áreas rurais. A Associação representa todas as regiões vinícolas italianas, é a maior rede de cidades de preservação de valores, de identidade, a primeira na Europa e no mundo. No sentido mais político e administrativo, os municípios representam o primeiro nível – e talvez o mais importante – de um governo democrático sobre os territórios e os interesses das suas comunidades, empresas e cidadãos, que devem trabalhar em conjunto para o desenvolvimento econômico e social sustentável da sua própria realidade. Na foto abaixo, a vila de Barolo, no Piemonte.

R. Ruschel – Como trabalha a Associação? Qual o valor da mensalidade para os associados?

Paolo Benvenuti – “A Associação opera através de uma empresa de serviços – a CI.VIN.Srl – com colaboradores e parceiros, e faz a gestão da comunicação da marca (na internet e redes sociais, em impressos em publicações on-line) e outras principais atividades. As principais são a competição internacional de vinhos “Selezione del Sindaco “, a principal da Itália e uma das maiores do mundo e o “Calici di Stelle”,  o maior evento de verão entre produtores de vinhos de cidades italianas realizado na noite das estrelas cadentes, em 10 de Agosto; este evento é realizado em parceria com o Movimento Turismo del Vino. Nós também buscamos oportunidades de experiências reais com estágios específicos para jovens enólogos e outras atividades técnicas.
“A Cittá del Vino se mobiliza no caminho cultural, político e estratégico como uma união de territórios italianos de vinho.”
Por outro lado, a Associação está se movendo no caminho cultural, político e estratégico, como uma união de territórios italianos de vinho. Ela funciona sobre os seguintes temas: planejamento urbano, paisagem e alimentos e turismo do vinho. É a única associação na Europa a ter um Observatório do Turismo do Vinho, que produz anualmente um relatório sobre o assunto. Na foto abaixo a equipe de organização e julgamento dos vinhos participantes do concurso internacional Selezione del Sindaco 2015, da Cittá del Vino, reunida no Palácio Marquês de Pombal, em Lisboa.

A Associação também mantém forte relacionamento com a Recevin (a Rede Europeia de Cidades do Vinho) e com uma pequena alteração no Estatuto, todas as cidades italianas de vinho também serão um membro desta associação europeia, e a partir disso se associarão também a AENOTUR (que você conhece e vem divulgando com frequência) e apoiarão a Rota Cultural Europeia Iter Vitis.

 A Cittá del Vino também é uma instituição cultural com a “Biblioteca das Cidades do Vinho” que já reúne mais de 3.000 volumes e com uma exposição permanente de arte moderna dedicado ao vinho. Os municípios associados pagam uma taxa anual com base no número de habitantes: a partir de 100 €, para os municípios que têm menos de 500 habitantes chegando a 2.673 € para os municípios com mais de 20.000 habitantes.“ Na foto abaixo viela de Montepulciano, pequena cidade com vinhos excelentes – foto de Mário Ventura.

“A Itália tem 403 vinhos com Denominação de Origem e 118 com Indicações Geográficas e utilizamos cerca de 500 diferentes tipos de uvas para produzi-los”

R. Ruschel – Quais os beneficios dos associados?

Paolo Benvenuti – A vinicultura italiana é talvez uma das mais ricas e complexas do mundo: temos 403 vinhos com Denominação de Origem e 118 com  Indicações Geográficas. Cerca de 500 diferentes tipos de uvas são necessárias para produzir estes vinhos e todas elas estão inscritas em um  Catálogo Nacional além de outros milhares de pequenas castas de uva locais. Temos mais de 5.000 feiras e festivais dedicados ao vinho todos os anos na Itália, e centenas de museus e adegas públicas. Estes são valores que têm de ser protegidos e promovidos pela Cittá del Vino. Em todas as regiões italianas a produção de vinho dá à luz micro ou macro economias, culturas, ambientes e paisagens, cada uma diferente da outra. Estudamos esses fenômenos, destacamos as culturas e as melhores práticas, desenvolvemos habilidades que podem ser compartilhados. E compartilhamos tudo isso com uma boa comunicação. “ Na foto abaixo um vinhedo plantado com uma técnica de 3.000 anos de cultivo da Ilha Pantelleria, a “vite ad alberello”, que foi tombada como Patrimônio Mundial da Humanidade da UNESCO.

R. Ruschel – Quais são os compromissos de uma Cidade do Vinho associada?

Paolo BenvenutiNo estatuto da associação adotamos uma “Carta da Qualidade das Cidades do Vinho”, que pretende representar nossas metas e compromissos que uma cidade deve tomar para melhorar a viticultura e a produção de alimentos e vinho, na convicção de que todas as Cidades do Vinho têm um traço comum que os une, mas cada um deles pode e deve ser diferente do outro. Os princípios são dez: proteger o vinho e sua paisagem; simplificar os procedimentos administrativos para as empresas no setor do vinho; esclarecer o papel do vinho e da percepção; disponibilizar a cultura do vinho; participar de rotas do vinho; abrir as adegas; oferecer os vinhos em restaurantes; inserir os vinhos em seus ambientes; produzir o vinho com criatividade; e participar o mais possível do calendário do vinho. “ Na foto abaixo Benvenuti comanda o evento de entrega dos prêmios “Selezione del Sindaco”.

“Se a qualidade de vida do cidadão em sua comunidade é positiva, ele tem que fazer com que isso seja percebido pelos outros”


R. Ruschel – Como a
Cittá del Vino universaliza o enoturismo?
Paolo BenvenutiA valorização da cultura do vinho não pode ser improvisada. Hoje existem relativamente poucas áreas nas quais você não sente que está em um lugar “excepcional” do ponto de vista do vinho e sua cultura. Isso não significa apenas ter vinícolas, mas ter todo um sistema que funciona em torno do vinho. Um dos mais belos projetos que estamos promovendo é o “Cellars sem Barreiras” (adegas sem barreiras), um projeto que visa a remoção de dificuldades físicas e melhorar o acesso às caves de vinho e territórios para as pessoas com deficiência, os cadeirantes. Além de estar na moda e ser amplificado pela mídia, atender deficientes é uma atitude turística mas principalmente de cidadania, porque  o turista não pode ser tratado como um cordeiro indo para o matadouro. O nosso trabalho vai nesse sentido: se a qualidade de vida do cidadão em sua comunidade é positiva, ele tem que fazer com que isso seja percebido pelos outros – especialmente em um território de vinho.

R. Ruschel – Como a Cittá del Vino contribui institucionalmente com a indústria de maneira geral?

Paolo Benvenuti – “Há mais de 15 anos nós estabelecemos o Observatório do Turismo de vinhos em colaboração com várias universidades e com a organizacção de pesquisa italiana “Censis”. (Acima um quadro de pesquisas realizadas pela Cittá del Vino, já publicadas por In Vino Viajas.) Estes relatórios têm fornecido um apoio valioso para identificar a oferta e a procura e estabelecer diretrizes para as empresas em geral que estejam em territórios de vinho. A Cittá del Vino tem contribuído, em seguida, para a lei italiana sobre roteiros do vinho e com o texto da Carta Europeia de Enoturismo. Em 2016, a Itália vai sediar a parte européia do Congresso Internacional de Turismo do Vinho e uma cidade italiana será nomeada “Cidade Europeia do Vinho”. Na foto abaixo, Paolo Benvenuti.

R. Ruschel – Como você percebe a industria do vinho no Brasil?

Paolo Benvenuti – “O Brasil é um grande mercado emergente para vinho e turismo do vinho, uma base importante para o desenvolvimento e a cultura do vinho. Nós nos sentimos ligados pela história e pela amizade: a cidade de Garibaldi já está irmanada com Conegliano Veneto. Tudo isso só tende a se desenvolver e eu acho que existem as condições adequadas para a criação de uma rede de produtores brasileiros de vinhos de padrão internacional, a fim de incentivar o conhecimento, o diálogo e os intercâmbios. Afinal de contas o Brasil foi o país anfitrião da edição de 2015 de “La Selezione del Sindaco”, e os seus vinhos se destacaram em qualidade. Além disso, houve o Congresso de Aenotur em Viana do Castelo e Ponte de Lima em Portugal com forte presença de brasileiros. Eu acredito que nós podemos seguir em frente, neste caminho.”
Você tem razão, Paolo, grazie tanto! E eu brindo a isso.
Veja pesquisas da Cittá del Vino já publicadas por In Vino Viajas aqui – http://migre.me/rfvkw– aqui http://migre.me/rfvmv  e aqui http://migre.me/rfvnA
(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas e admirador do trabalho de pessoas e organizações que respeitam o talento e valorizam a cultura comiunitáriamente.

 

 

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