Lembranças da “Melhor Região Vinícola do Mundo a Visitar”: belezas e delícias de Regengos de Monsaraz e dos campos do Alentejo, Portugal

Tempo de leitura: 8 minutos

Por Rogerio Ruschel (*)

Meu querido leitor ou leitora, vou começar esta lembranças com poesia: parafraseando o poema I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, digo que “meninos, eu vi!”. Vi e me apaixonei por Reguengos de Monsaraz (a Cidade Européia do Vinho 2015), Monsaraz e seu castelo (foto acima, de João Fructuosa), São Pedro do Corval, Mourão e vizinhança no Alentejo, a região mais agrícola de Portugal, e também uma das mais bonitas.

E olha que dizer isso sobre uma região de Portugal é muito difícil porque, mesmo pequeno (é menor do que o Estado de Santa Catarina, aqui no Brasil) Portugal atrai turistas do mundo inteiro por uma grande lista de razões. Algumas destas razões sobre o Alentejo você vai ver a seguir, as mesmas que fizeram com que o jornal norte-americano USA Today a considerasse a melhor região vinícola do mundo para visitar, em 2014. E quem vai discordar deste que é um dos maiores jornais do mundo?  Na foto abaixo, de João Fructuosa, as videiras  se fundem com o céu e o lago Alqueva, na poética e premiada Algarve que conheci.

Lembrei do poeta romântico Gonçalves Dias porque se “nossa terra tem palmeiras” como ele escreveu, o Alentejo tem campos, muitos campos e que produzem o que precisamos para uma vida de enófilo: campos com vinhedos (a árvore que produz vinhos), com sobreiros (a árvore que produz rolhas de cortiça), com olivais (a árvore que produz o azeite de oliva), campos com cabras, vacas e ovelhas que produzem carne, leite e queijos e os famosos porcos alentejanos, especializados em nos proporcionar deliciosos enchidos e presuntos. Fiz uma degustação de azeites em uma típica casa alentejana na Mercearia Ilegal (foto abaixo) e também visitei uma fazenda de cabras onde fotografei o jovem da foto abaixo.

 

E para a sobremesa dos turistas enófilos, no Alentejo as gentes locais produzem doces impressionantemente deliciosos, e mel – um delicioso mel de abelhas alentejanas! O Alentejo é considerado o celeiro de Portugal e vem arrancando elogios de publicações especializadas em turismo de bom gusto de todo o mundo com sua beleza, simplicidade, conjunto de atrações – e preço acessível, meu caro leitor, porque este é outro grande benefício de viajar para Portugal.  Na foto abaixo, um bosque de sobreiros, um montado de sobreiros.

O que destacar numa região destas que tem duas cidades tombadas como Patrimônio da Humanidade – Évora e Elvas – e o famoso castelo de Monsaraz? Évora (foto abaixo) tem mais de 2.000 anos de história, embora sua data de fundação seja “apenas” em 1.166; mas bem antes disso a cidade foi sede das tropas do general romano Sertório que junto com os lusitanos, antigos moradores da região, teriam enfrentado o poder de Roma.

Já Elvas, que fica a apenas 8 quilometros da Espanha, foi a mais importante defesa do território português e a cidade mais fortificada da Europa durante muito tempo – e suas muralhas, junto com o centro históirico da cidade, são agora Patrimônio da Humanidade. E para mim Elvas tem outro charme especial: fica no municipio de Portalegre, que me lembra de Porto Alegre, a capital do meu querido (e também rural e vinícola) estado do Rio Grande do Sul. Sobre Monsaraz, me desculpe meu caro leitor ou leitora, mas como estive lá, caminhei por lá, fotografei por lá, entrevistei por lá, almocei e jantei por lá, quero apresentar em outra reportagem por aqui. Veja um pouquinho do castelo nas fotos abaixo.

 

Outro patrimônio mundial desta região do Algarve é um dos céus mais claros e limpos do mundo, razão pela qual oferece aos visitantes a possibilidade de fazer uma viagem interestelarna Rota Dark Sky Alqueva, o primeiro sitio certificado de turismo astronômico do mundo (fotos abaixo). E se você quiser conhecer nossas estrelas, astros e galáxias, saiba que pode ter ao seu lado gente de todo o mundo: na semana em que estive lá, uma diretora da NASA estivera no local fazendo palestra e pesquisando o universo. Não sei se ela procurava alguém em específico em Marte (já que agora eles confirmam a “potencial existência de vida”), mas eu tenho quase certeza que vi meus amigos  do Cinturão de Órion! Veja na foto abaixo o guia indicando o caminho para os turistas, e uma foto do astrofotógrafo Miguel Claro, um dos dirigentes da Rota Dark Sky Alqueva.

Como estamos em Portugal, certamente se come e se bebe muito bem no Alentejo. Visitei três das nove vinícolas do município de Reguengos de Monsaraz em companhia de seus enólogos: a Herdade do Esporão (com Rui Flores, na foto abaixo), a Carmim (com Rui Veladas) e a Monte dos Perdigões (com Jorge Rosado). A Herdade do Esporão – que também tem unidades no Douro, mas tem sede no Alentejo – é conhecida dos brasileiros por seus azeites e pelos ótimos vinhos Monte Velho, Torre do Esporão, Verdelho e Defesa.

Mas também é muito conhecida (e respeitada) por suas práticas de sustentabilidade, que fiz questão de conhecer e que quero apresentar em outra reportagem.  A Carmim é a maior cooperativa vinícola de Portugal, e aqui no Brasil pode-se encontrar seus azeites e também vinhos como os Monsaraz Millenium, Premium e os monovarietais de Touriga Nacional (muito bom!), Alicante Bouschet e Syrah. Meu passeio por lá e pela Monte dos Perdigões também vai ser mostrado aqui.

O Alentejo fica no centro-sul de Portugal (veja mapa acima), é a maior região do país e embora tenha muitos campos, lá fica o maior lago artificial da Europa – o Alqueva – e dois importantes parques – o Parque Natural da Serra de São Mamede e Parque Natural do Vale Guadiana. É uma região estratégica porque lá se encontram as bacias hidrográficas dos tres maiores rios do pais, Tejo, Sado e Guadiana que encontram o mar na região da Grande Lisboa.

Como tem acesso pelo mar (onde estão charmosas aldeias como Sines e Porto Covo destacadas pelo jornal britânico The Guardian em 2014 como as melhores da Europa) e é plano, o Alentejo vem atraindo moradores e visitantes há muito tempo – mais específicamente há mais de 7.000 anos. Nesta região estão muitos monumentos megalíticos: já foram catalogados mais de 100 menires isolados, cerca de 800 antas (casas de pedra) e perto de 450 povoações megalíticas, só no concelho de Évora. Esta riqueza da pré-história no Alentejo é das mais importantes da Península Ibérica, porque alguns datam de até 5.500 anos AC. Na foto acima está o Cromeleque dos Almendres e abaixo este repórter examinando um menir com o guia.

Não posso terminar esta lembrança do Alentejo sem registrar outra atração turística tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco – e agora por mim: o Cante Alentejano. Mais do que dizer que “meninos, eu vi!”, devo dizer que “meninos, eu ouvi!”. 

Estava no Castelo de Monsaraz (acima) jantando com o grupo de palestrantes da Conferência Internacional da Vinha e do Vinho, comendo bochechas de porco e arroz de tamboril com um vinho da região no restaurante Templários (que tem este nome porque pertenceu a esta ordem militar religiosa no século XII, acredite!) quando o prefeito José Calixto, nosso anfitrião, nos brindou com uma apresentação de Cante Alentejano. 

Cerca de 25 agricultores, todos com mais de 50 anos, pessoas rústicas por trabalharem na terra, entraram no salão e cantaram canções simples, rurais, inocentes – e absolutamente lindas! É uma experiência inesquecível porque você espera um coral de marmanjos e ouve uma canção arrebatadora. Não tenho vergonha de dizer que me emocionei (como dá prá ver na foto abaixo, na qual estou disfarçando a emoção, e tive que me esconder no banheiro para lavar o rosto) – onde descobri que não tinha sido o único

Pois é, meus queridos leitores e leitoras, passei alguns dias nesta região do Alentejo Central e vi, ouvi, provei e vivenciei belezas e delicias das quais não vou me esquecer nunca mais e recomendo com insistência. Simplesmente fiquei apaixonado. E como um apaixonado, nas próximas semanas enviarei cartas de amor na forma de reportagens sobre todas estas belezas e delicias do Alentejo.

(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas a partir de São Paulo, Brasil, e lembrou muito de sua terra, Rio Grande do Sul, quando visitou o alentejo. Agora quer voltar – para o Alentejo.

8 Comentários


  1. muito bom.
    parabéns Rogerio pela sua clarividência.
    isto que você escreve e mostra é o maior segredo do planta Terra. Não espalhe muito por favor.
    fraterno abraço e volte sempre,
    cc

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  2. Parabéns!
    O que aqui faz é um grande tributo ao verdadeiro Alentejo- aquele que vive das tradições, do peso das suas heranças.Uma verdadeira demonstração de como este paraíso deve ser vivido.
    O Alentejo está aqui de braços abertos para o receber.

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  3. Carlos, entendo tua preocupação, mas considere duas coisas: 1) mais do que bonito e turístico, o Alentejo para mim é uma reserva do melhor DNA da natureza humana, então o mundo precisa conhecer; 2) meus leitores, embora sejam milhares e estejam em 126 países, são pessoas de bom gosto e cultura superior; assim, quando visitarem o Alentejo deixarão alguma contribuição. Obrigado pelas palavras, abs

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