Vêneto, trentino e toscano: veja como dialetos da Itália se fundiram com o português para criar o talian, um idioma único que canta, brinda e permanece vivo no Brasil

Tempo de leitura: 5 minutos

 

Por Rogerio Ruschel (*)
Meu prezado leitor ou leitora, acho que você vai se surpreender com uma informação muito interessante sobre a cultura brasileira. Sabe qual é o segundo idioma mais falado no Brasil? Não, não é o inglês (falado apenas em ambientes profissionais), nem um idioma indígena – é o Talian, derivado de dialetos falados na Itália no século XIX trazido pelos imigrantes, e atualmente falado regularmente por cerca de 500 mil pessoas em 133 municípios brasileiros. E cantado animadamente nas regiões vinícolas do país, como mostra a imagem acima, de poster da revista Brasil Talian.

 

Quando os imigrantes italianos começaram a chegar ao Brasil em 1875 (na foto acima, familias de imigrantes italianos no início do século XX em São Paulo), ainda não existia um idioma oficial único na Itália e muitos dialetos eram falados em todo o país – o italiano adotado oficialmente tem suas principais raizes no Toscano, dialeto falado na região de Florença. Abaixo, filó italiano, animada música com dança e letra em Talian, que é uma das heranças italiana preservada no sul do país.

 

Os italianos que imigraram para o Brasil vieram de diferentes partes da Itália, mas eram especialmente familias do Vêneto, Lombardia e Trentino-Alto Ádige. Em alguns locais o dialeto trazido acabou se sobrepondo aos demais, como ocorreu com a comunidade de Pomeranos, em Santa Catarina, onde o dialeto trentino conseguiu se manter; já na serra gaúcha o que se disseminou foi o uso do Vêneto, principal raiz do Talian segundo os especialistas. Relembrar um pouquinho da história explica a preservação dos dialetos. Nas primeiras décadas de imigração, havia grande resistência da comunidade italiana em se misturar com os brasileiros. No sul do Brasil muitas colônias italianas eram situadas em regiões isoladas ou relativamente independentes da população brasileira, o que permitiu a manutenção dos dialetos por gerações, mesmo absorvendo diversas influências da língua portuguesa.

 

O vêneto que se manteve na serra gaúcha é arcaico quando comparado ao vêneto falado atualmente na Itália, pois é semelhante ao que era usado no século XIX. E é resistente, porque mesmo com a campanha de nacionalização de Getulio Vargas, em 1930, e com II Grande Guerra, em 1945 – quando o idioma italiano foi proibido no Brasil – este dialeto italiano falado em regiões do sul do país se manteve, com o nome de Talian. Na foto acima capa do livro do Frei Aquiles Bernardi com a saga de Nanetto Pipetta, que também virou peça teatral.

O Talian atualmente é falado por cerca de 500 mil pessoas em 133 municípios brasileiros, é reconhecido como “Referência Cultural Brasileira” pelo Ministério da Cultura (MinC) e como patrimônio cultural pelos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Nos municipios gauchos de Serafina Correia, Flores da Cunha, Parai e Nova Erechim o Talian é lingua oficial, ao lado do português. Acima, foto de placa de rua em Serafina Correa.

Muitos pesquisadores italianos e brasileiros estudam o assunto. Em Garibaldi, também no Rio Grande do Sul, são realizados cursos para que o idioma não se perca – a turma mais recente teve 32 alunos que se formaram em junho de 2015 (foto acima). Ivane Fávero, Secretária de Cultura e Turismo do município resume o porque de tanta preocupação com o idioma: mantê-lo vivo representa uma riqueza imaterial na preservação da cultura, e a importância de sua influência na gastronomia, arquitetura, festas e nos valores da região. Aliás, recentemente a professora universitária, jornalista, intérprete e tradutora italiana Giorgia Miazzo esteve em Garibaldi fazendo oficinas, como complemento de sua tese defendida na Universidade de Veneza Cà Foscari sobre “Cantando em talian: Valorização do patrimônio cultural e imaterial linguístico da emigração vêneta para o Brasil por meio da música e da glotodidática lúdica”.

Aqui no Brasil diversos livros já foram publicados no idioma Talian e existem dicionários nos tres idiomas, de Jaciano Eccher e um Dicionário Português-Talian de autoria do professor Darcy Loss Luzzatto (fotos acima e abaixo).

 

Existem estações de rádio que transmitem algumas horas de sua programação em Talian em vários municípios dos estados do RS, SC, ES, PR e MG; e desde 2013 existe uma revista a ”Brasil Talian”. (http://www.talianbrasil.com.br/). Quer participar ativamente? O site Gruppo Italiani in Brasile (http://italiani-inbrasile.blogspot.com.br/) difunde música e realiza há 23 anos um Encontro Nacional dos Difusores do Talian em Marau-RS.

 

Em 2001, a Associação dos Apresentadores de Programa de Rádio Talian pediu o registro da língua como patrimônio cultural do Brasil. Estas e todas as iniciativas para preservar, ampliar e resgatar o dialeto Talian são importantes. Resgatar o Talian significa marcar para sempre a cultura comunitária no Coração das futuras gerações – ou no “Coraçon” (em Talian), no “Core” ou “Cor” (em Vêneto Original) ou no “Cuore”, como se diz atualmente no italiano oficial.
E para comemorar isso podemos abrir uma Garrafa de vinho, ou uma “Garafa” (em Talian), uma “Botiglia” (em Vêneto Original) ou então uma “Bottiglia”, no italiano atual. Meu queriodo leitor ou leitora, proponho um brinde para a cultura brasileira!

 

(*) Rogerio Ruschel é gaucho e morou na serra gaúcha, mas atualmente mora, bebe, escreve e trabalha em São Paulo

 

12 Comentários


  1. Já na capital paulista, nos bairros tradicionalmente italianos, o que se escuta, por parte dos ítalo-descendentes é uma mistura dos dialetos do sul da Itália. No italiano falado pelo paulistano oriundi, o napolitano se sobrepõe às outras influências, sendo calabresas e pugliesas. Eu, como neto de imigrantes napolitanos e casertanos, aprecio como o Talian se manteve no RS, ainda que ache muito mais bonita a bela e sonora língua de Napoli.

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  2. Mario, eu desconfio que o italiano daqui de São Paulo seja uma grande mistura de dialetos, mesmo que o napolitano se sobreponha. Parece que a maioria dos imigrantes chegavam ao Brasil pelo porto de Santos, então é natural que gente de todas as regiões italianas tenham permanecido aqui. Obrigado pelo prestigio da leitura. abs

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  3. Bem, na minha opinião, e de acordo com a minha experiência, a mistura de dialetos no italiano de São Paulo tende mais para o sul da Itália, ainda que haja influência de toda Itália.

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  4. Aqui no sul se fala Vêneto. As misturas que existem às vezes são feitas com o português porque as pessoas, ou não sabem como dizer aquela palavra em vêneto ou se esqueceram. Não existe toscano aqui no sul. A imigração do Sul foi massivamente Vêneta, alguns friulanos, trentinos e poucos lombardos. A língua dos friulanos foi quase completamente extinta aqui, e mesmo assim, os friulanos que vieram sabiam falar vêneto também, então a língua do friulano ficava entre a família. Os trentinos, assim como hoje, falavam vêneto, uma variante de língua vêneta, onde eles basicamente só cortam o final das palavras. Os lombardos vieram em um número insignificante que foram totalmente absorvidos pelos vênetos. Eu falo a Língua Vêneta daqui do sul (talian) e a estudo, e tenho total liberdade para dizer que é a mesma língua falada na região do vêneto ainda hoje em dia, pois converso todos os dias com os vênetos da Itália. Dizer que o Talian é um idioma novo não tem coerência. Se se constrói facilmente um novo idioma só porque ocorrem algumas anexações de palavras estrangeiras dentro de uma determinada língua, então podemos dizer que no Brasil não se fala português, pois o português brasileiro absorveu palavras de diversas línguas, como do idioma indígena, africano, vêneto, alemão, espanhol, etc. Existe sim atualmente a influência da língua italiana interferindo na Língua Vêneta aqui no sul, pois as pessoas, não tendo referências de Vêneto, acabam por absorver palavras italianas em seu vocabulário por meio de filmes italianos, livros italianos e de cursos de italiano.

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