Conheça Roberto Cipresso, o criador dos vinhos do Papa, dos 150 anos da Unidade Italiana e do Galvão Bueno

Tempo de leitura: 11 minutos

Por Rogerio Ruschel (*)

Exclusivo para In Vino Viajas – Meu prezado leitor ou leitora, uma das coisas boas de escrever sobre a cultura do vinho é que você conhece pessoas que além de talentosas e elegantes, tem cultura e bom gosto. O italiano Roberto Cipresso, enólogo da Bueno Wines, é uma destas pessoas. Fui apresentado a ele por Galvão Bueno com a seguinte frase: “Questo é il mio fratello italiano”- e de fato os dois se comportam como irmãos de verdade.

Roberto Cipresso é uma personalidade pública na Europa: um dos mais premiados enólogos de sua geração, é um professor disputado e querido, um pesquisador incansável dos mistérios da vitivinicultura e um emocionado defensor de causas culturais. Ele poderia estar vivendo da fama de ter sido convidado para fazer os vinhos do Papa João Paulo II, de ter criado o vinho comemorativo dos 150 anos da Unificação da Itália, ou de ser um dos poucos criadores de vinhos que conseguiu uma pontuação 99/100 de Robert Parker para um vinho argentino. E a foto abaixo prova que ele se aprofunda no seu trabalho…

Mas ele é um grande ser humano e quer aproximar os brasileiros dos italianos por uma das poucas coisas que supera qualquer diferença econômica, política ou social entre dois povos: a cultura. E In Vino Viajas revela com exclusividade que Roberto Cipresso gostaria de organizar um evento para destacar um dos aspectos mais interessantes e curiosos das duas culturas: os diferentes caminhos da evolução do idioma italiano dos dois lados do Oceano Atlântico desde a unificação da Itália nos últimos 150 anos. In Vino Viajas apoia causas que melhorem a qualidade de vida. Já publicamos a história de como dialetos vindos com os imigrantes se fundiram com o português para criar o talian, um idioma único que só existe no Brasil – veja no fim desta reportagem. Mas antes eu o convido para conhecer Cipresso.

R. Ruschel: Onde você nasceu e cresceu? A família produzia vinhos?

R. Cipresso: Eu nasci em Veneto, em Bassano del Grappa, Provincia de Vicenza (foto acima), e foi aí que eu passei a minha infância e minha adolescência, embora durante alguns anos tenha estudado em Pádua. Meu pai era um amante de vinho, mas não teve muito sucesso neste ambiente, o mesmo com minha mãe. Minha formação superior foi no Instituto Agrícola de Pádua e depois fiz um Mestrado em Viticultura e Enologia no Instituto de San Michele. Eu continuei a trabalhar por um período com o mesmo instituto, e através dele conheci um fabricante de Montalcino, Gianfranco Soldera, hoje proprietário da Case Basse. Em 1987 me mudei para Montalcino, inicialmente apenas para trabalhar com ele. (Abaixo, Montalcino)

R. Ruschel: Somo surgiu e como trabalha a Fattoria La Fiorita, a tua empresa vinícola? Como são os vinhos? Como se pude comprar teus vinhos no Brasil?

R. Cipresso: O nascimento da empresa La Fiorita remonta a 1992 quando com dois amigos tivemos a oportunidade de comprar terras em Montalcino; a empresa desde então tem se desenvolvido a partir deste pequeno grupo e a última vez que a estrutura corporativa mudou desde a fase inicial, foi quando vendemos parte da propriedade para dois sócios de Nova York. La Fiorita produz Brunello di Montalcino a partir de uvas provenientes de dois crus diferentes, o Poggio  del Sole e o Pian Bossolino. No momento nossos vinhos não estão presentes no Brasil, mas o país é um mercado de grande interesse para nós, e esperamos em breve ser representados. (Abaixo, a propriedade dele, Poggio al Sole).

R. Ruschel: Como é a Winemaking? Que tipo de clientes e projetos você faz?

R. Cipresso: Winemaking é o nome do meu grupo de consultoria agronômica e vinho. Tem sua sede em Montalcino e temos colaborado com produtores em diferentes mercados, com diferentes realidades, da Itália e do exterior, entre as quais com projetos na Croácia, Romênia, Espanha, Turquia, Argentina, Brasil e outros países. (Na foto abaixo o mestre ensinando a perceber aromas).

R. Ruschel: Como você recebeu os comentários de Robert Parker e a pontuação da Wine Advocate para os vinhos que você desenvolveu para a Bodega Achaval-Ferrer, da Argentina?

R. Cipresso: A Bodega Achaval-Ferrer conseguiu com seu trabalho e com os seus vinhos uma importante maneira de fazer o vinho na Argentina e tem contribuído com o desenvolvimento potencial deste setor no pais. Robert Parker avaliou a empresa considerando isso e recompensou seus vinhos com ótimas notas, sendo que a maior pontuação – 99/100 – foi atribuída ao Finca Altamira 2009 (e 97/100 para a safra 2013).

R. Ruschel: Qual o segredo dos vinhos da Bodega Achaval-Ferrer?

R. Cipresso: Creio que essencialmente estes vinhos reforçam o terroir das uvas onde foram cultivadas, e nós apenas encorajamos a sua expressão o mais próximo possível nos seus vinhos, ao invés de, como era feito em muitos casos no passado na Argentina, tentar fazer um vinho imitando as escolhas de outros países como os Estados Unidos e o Chile. (Abaixo: Cipresso mergulhado no trabalho na Achaval-Ferrer).

R. Ruschel: Como você conheceu Galvão Bueno? Bueno me disse que vocês dois, mais do que sócios, são irmãos de alma. Como você vê o futuro com a Bueno Wines?

R. Cipresso: Eu conheci Galvão Bueno há alguns anos atrás em Montalcino, e nós imediatamente entramos no mesmo comprimento de onda. A partir de nosso primeiro acordo comercial nasceu uma amizade muito sincera que vai além de fazer o vinho juntos. Nossos projetos relacionados ao vinho são feitos em duas grandes apostas: no vinhedo de Montalcino para a produção do Brunello Bueno-Cipresso, e a realidade brasileira na campanha gaúcha, com o projeto Bellavista.
“Toscana e Campanha Gaúcha são dois terroirs e duas empresas que a única coisa têm em comum é o mesmo sol”

R. Ruschel: Como você avalia o trabalho com a Bueno Wines na campanha gaúcha, na serra gaúcha e na Toscana? Dá para fazer algum paralelo entre estes tres terroirs?

R. Cipresso: Estes são projetos muito diferentes e como as qualidades do solo influenciam o tipo de produtos que podem ser obtidos, isto se torna fascinante porque a única coisa que as duas empresas têm em comum é o mesmo sol.
R. Ruschel: Como é o Projeto Winecircus, a cantina-laboratório? Quais os principais resultados? Quais são os planos futuros?
R. Cipresso: O Winecircus é minha adega experimental, algo assim como minha oficina de pesquisas. Ela também tem sede em Montalcino e conta com uma forte equipe de profissionais que me apoiam. Aqui, as uvas se tornam alguns dos produtos que eu acabo produzindo (como o Brunello Bueno-Cipresso), mas ao mesmo tempo realizo meus experimentos e pesquisas que podem levar a minha própria linha de vinhos – La Quadratura del Carchio, Il Punto, Il Pigreco e l’Eureka. (Na foto abaixo, alguns dos produtos de Cipresso).

R. Ruschel: Como é o projeto Winetailor? Como funciona? Quais os principais resultados? Quais são os planos futuros?

R. Cipresso: Winetailor é a “construção” de um vinho “sob medida”, o que em outros países é chamado de “vinho de garagem”. Existem muitos amantes do vinho que querem fazer um produto com a sua personalidade, sob encomenda, e não só a configuração da mistura, o tipo de vinho, mas também a embalagem. Como muitos não vão ter uma chance porque não possuem uma vinha e uma adega, eu os ajudo como consultor. É também uma forma de financiar e de desenvolver os produtos de micro-vinificação que pesquiso no Winecircus, apenas para fins de investigação, a partir de vinhas heróicas e de variedades esquecidas. Então os fãs que vêm a mim como clientes para obter um vinho “sob medida”, ao mesmo tempo que perseguem seus objetivos, financiam minhas pesquisas. E todos saem ganhando. (Na foto abaixo uma destas turmas de alunos e fãs.)

R. Ruschel: Como foi fazer o vinho do Papa? Como é este vinho?

R. Cipresso: É um vinho doce, obtido pela associação de diferentes variedades de uvas cultivadas em diferentes regiões do território italiano, e foi uma encomenda da Città del Vino, a Associação Italiana de Cidades do Vinho, em homenagem a João Paulo II por ocasião do Jubileu do ano 2000, uma atividade importante para os católicos, que se repete de 25 em 25 anos.
(Meu caro leitor: In Vino Viajas entrevistou Paolo Benvenuti, o diretor executivo da Associação Italiana de Cidades do Vinho, a Città del Vino; veja o link no fim desta matéria.)
“Tenho algumas garrafas do vinho da Unificação e gostaria de levar para os prefeitos de Garibaldi e de outros municípios do sul do país; seria também uma boa ocasião para realizar uma conferência sobre o vinho italiano, precisamente no dialeto Vêneto/Talian”
R. Ruschel: Como foi fazer o vinho dos 150 anos da Unificação da Itália?  Como é este vinho? Como você produz vinhos na serra gaúcha, como é possivel fazer uma ligação da Serra Gaúcha com a Unificação da Itália? 
R. Cipresso: O vinho para a celebração do 150º aniversário da unificação da Itália também nasceu em colaboração com a Associação de Cidades do Vinho da Itália, e foi produzido a partir de 150 variedade de uvas, cada uma representando uma região italiana. Tivemos que estudar com muito cuidado a fim de obter o melhor equilíbrio possível entre uvas, porque estávamos combinando diferentes histórias e peculiaridades culturais. Algumas dessas garrafas foram preservados e sonho um dia poder entregar algumas ao prefeito da cidade de Garibaldi e aos prefeitos das cidades vizinhas, nas quais o dialeto veneziano na sua versão talian ainda está vivo. Na verdade creio que esta seria uma boa ocasião para realizar uma conferência sobre o vinho italiano precisamente no dialeto Vêneto/Talian. Vamos realizar este evento?” Na foto abaixo, este repórter com Galvão Bueno e Roberto Cipresso.

Sobre o evento:

O idioma vêneto falado especialmente nas regiões vinícolas do sul do Brasil é considerado arcaico quando comparado ao vêneto falado atualmente na Itália. Dialetos como vêneto, piemontese, trentino e toscano falados na Itália antes da unificação do país, que vieram com os imigrantes, acabaram se fundindo entre si e misturando com o português para criar o Talian, o segundo mais importante idioma do Brasil, falado regularmente por cerca de 500 mil pessoas em 133 municípios brasileiros. Roberto Cipresso pensa em fazer uma conferência sobre o vinho italiano neste dialeto, eventualmente analisando seu uso na atividade vinícola. Saiba mais sobre o Talian aqui: http://www.invinoviajas.com/2015/10/veneto-trentino-e-toscano-veja-como/
Quando estive com Roberto Cipresso, me comprometi a ajudá-lo a realizar este evento. Ele pensa em fazê-lo em Garibaldi, na serra gaúcha, por causa da proximidade com a comunidade do Vêneto e da atividade vinícola, sendo que a conferência pode ser parte ao vivo e parte por internet. Acredito que poderemos contar com o apoio de Ivane Favero, ex-secretária de Cultura e Turismo de Garibaldi e atualmente Presidente da Aenotur – Associação Internacional de Enoturismo. Quem mais poderia ajudar? Todo tipo de apoio será bem-vindo; comente aqui embaixo ou envie e-mail rruschel@uol.com.br que passarei para o Cipresso.

Se conseguirmos realizar o evento imaginado por Roberto Cipresso poderemos abrir uma Garrafa de vinho, ou uma “Garafa” (em Talian), uma “Botiglia” (em Vêneto Original) ou então uma “Bottiglia”, no italiano atual. 

Veja a entrevista com Paolo Benvenuti, diretor da Città del Vino em http://www.invinoviajas.com/2015/08/conheca-como-citta-del-vino-promove-o/ 

(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas e aceita ajuda para ajudar Roberto Cipresso e suas ideias culturais.

8 Comentários


  1. Caro amigo Rogério, é com grande prazer que me disponibilizo para auxiliar na realização deste evento. Tive o prazer de conhecer e conviver alguns dias com o enólogo Roberto, na ocasião da Seleccion del Sindaco 2015, no Palácio do Marques de Pombal em Oeiras, Portugal. Realmente uma excelente pessoa e muito profissional!
    Infelizmente não posso comentar sobre seus vinhos, pois ainda não tive a oportunidade de os provar…
    Dessa forma, deixo aqui registrado o meu interesse em disseminar a cultura ligada ao vinho e suas repercussões na atividade turística.

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