Veja como a certificação de origem preserva territórios, protege a identidade e valoriza as comunidades que produzem vinhos no Brasil

Tempo de leitura: 7 minutos

Por Rogerio Ruschel (*)

Meu caro leitor ou leitora, como você sabe, o vinho tem identidade própria, herdada do território, do tipo de uva, do terroir e construída pela cultura da comunidade e pelo talento do produtor. Embora produza vinhos comercialmente desde 1875, o Brasil começou a se preocupar com a identidade de seus vinhos apenas há 15 anos, com a busca por uma certificação de origem. Só para termos uma referência, a Itália tem 403 vinhos com Denominações de Origem Controlada ou Denominação de Origem Controlada e Garantida e 118 com Indicações Geográficas e a certificação organiza o caos porque os italianos utilizam cerca de 500 diferentes tipos de uvas para produzir os vinhos certificados.  Na foto abaixo a geada na serra gaúcha, em foto do jornal Zero Hora.

Mas qual a importância disso? A certificação existe para garantir a reputação do vinho e identificar a região na qual ele é produzido – na atividade agrícola agregar valor ao produto original pode aumentar o lucro do produtor. Soja beneficiada, suco de uva puro congelado e tomate orgânico, por exemplo, são produtos com maior valor agregado do que seus similares convencionais. Pois na atividade agrícola que trabalha com especialidades enogastronômicas como vinhos, queijos, temperos, azeites, chás, carnes e outros alimentos, os produtos agrícolas tem outra dimensão: são considerados ativos fundamentais do patrimônio de uma comunidade e não só por seu valor econômico, mas também por sua importância social e cultural.

Assim, um vinho Chianti ou Bordeux ou uma garrafa de Champagne representam a expressão engarrafada de centenas de anos de pesquisas, experiências, melhorias e muito controle de qualidade. Uma Denominações de Origem – DO é a senha de uma identidade que se considera única por fatores  culturais, biológicos, do terroir ou climáticos. O sistema de classificação francês foi criado formalmente em 1935, com as AOCs (Apéllation d’Origine Controlée). Portugal tem a denominação de origem regulamentada mais antiga, feita para o vinho do Porto, criada em 1756. Quando estive na Borgonha francesa pude ver a seriedade com que fiscais vão aos vinhedos avaliar as uvas e certificar sua origem para avalizar seu valor.

Esta certificação no Brasil é feita na forma da licença de uso de uma Denominação de Origem (DO) ou Indicação de Procedência (IP) e a classificação exige o cumprimento de normas bastante restritas que abrangem desde o cultivo da uva até o engarrafamento do vinho. Veja a seguir as iniciativas do Brasil nesta direção, com dados e informações do Instituto Brasileiro do Vinho – Ibravin.

DO Vale dos Vinhedos

O Vale dos Vinhedos (no centro do mapa de turismo acima) foi a primeira região vinícola a buscar regras de certificação, recebendo a Denominação de Origem (DO) em 2012, 10 anos após a região alcançar o status de Indicação de Procedência (IP), pré-requisito exigido pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) – órgão oficial  brasileiro de certificacões – para a concessão da DO. As uvas permitidas são Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Tannat, Chardonnay e Riesling Itálico; os Espumantes apodem usar Chardonnay, Pinot Noir e o Riesling Itálico. A Denominação de Origem Vale dos Vinhedos e a Indicação de Procedência (IP) Pinto Bandeira (mais abaixo) lançaram recentemente um cadastro georreferenciado de suas áreas feito pela Embrapa Uva e Vinho com o apoio do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). In Vinho Viajas divulgou, veja aqui: http://invinoviajas.blogspot.com.br/2015/11/saiba-como-o-georrerenciamento-de.html

IP Pinto Bandeira

Pinto Bandeira, município da serra gaúcha, teve sua vocação para a elaboração de espumantes reconhecida em 2010 pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) por meio da Indicação de Procedência (IP) para a região. Os produtos que recebem o selo da IP são previamente avaliados por um júri regulador, que verifica se os rótulos apresentam a qualidade mínima esperada e se trazem as características particulares dos vinhos e espumantes elaborados em Pinto Bandeira.

IP Altos Montes

Com 173,84 quilômetros quadrados, a Indicação de Procedência (IP) Altos Montes é a maior já certificada no Brasil. Abrange Flores da Cunha e Nova Pádua, na Serra Gaúcha, municípios que estão entre os maiores produtores de vinhos por volume do Brasil. Foi batizada assim por causa de seu relevo acidentado e pela altitude, que chega a 885 metros. O cultivo da uva na região é marcado pela ocorrência em pequenas propriedades e por empregar basicamente mão-de-obra familiar, o que não impediu que as vinícolas fizessem uso de alta tecnologia para elaborar vinhos cada vez melhores.
IP Vales da Uva Goethe
Única Indicação de Procedência (IP) relativa à vitivinicultura fora do Rio Grande do Sul até agora, os Vales da Uva Goethe compreendem a produção de vinhos brancos, espumantes ou licorosos a partir dessa variedade no Litoral Sul de Santa Catarina. O ponto de referência geográfico da IP é a cidade de Urussanga, mas se estende por outros sete municípios vizinhos. Obtida em 2011, a certificação de origem foi uma conquista da Associação dos Produtores da Uva e do Vinho Goethe da Região de Urussanga (Progoethe), entidade fundada para agregar vinicultores e desenvolver a imagem dessa casta.
IP Vinhos de Farroupilha
 Em julho de 2015 os produtores que integram a Associação Farroupilhense de Produtores de Vinhos, Espumantes, Sucos e Derivados (Afavin) viram a publicação do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) do processo oficializando o certificado de registro da mais nova Indicação Geográfica (IG) de vinhos do país, a Indicação de Procedência (IP) Farroupilha para vinhos finos moscatéis. O trabalho foi feito pela Embrapa Uva e Vinho, que coordenou o projeto técnico.

E só para você ter certeza de que uma certificação é coisa séria, meu amigo ou amiga, saiba que o processo exigiu a preparação de um dossiê com a delimitação geográfica, a caracterização da vitivinicultura (vinhedos e vinícolas), os processos de produção, as características de qualidade química e sensorial dos vinhos, incluindo a comprovação do renome da região como produtora de vinhos moscatéis finos. No projeto, constou também a formulação do Regulamento de Uso da IP, estabelecendo os processos de produção exclusivos e obrigatórios, bem como do Sistema de Controle para a qualificação dos vinhos com o qualificativo da IP. 

 O cultivo da uva está se expandindo no Brasil, como mostra o quadro acima. Outras três regiões brasileiras estão buscando certificações. Na Serra Gaúcha os Vinhedos de Monte Belo (através da Aprobelo) já ingressaram com pedido no INPI para a Indicação Geográfica de seus vinhos. Na região da campanha gaúcha a Vinhos da Campanha trabalha para o reconhecimento da zona produtora que abrange a fronteira do Brasil com o Uruguai. E no nordeste brasileiro os produtores ligados ao Instituto do Vinho Vale do São Francisco (VinhoVasf) buscam a certificação para o Vale do Submédio São Francisco (foto abaixo).

No Brasil vários produtos tem certificações no INPI como melões, queijos, carne bovina, cafés, chás, cachaça, couro, artesanato, arroz, pedras de gnaisse e até camarões da Costa Negra – saiba mais no site do INPI.

(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas e certifica que seus textos são produzidos em São Paulo, Brasil.  As fotos tem origem no site do Ibravin – exceto uma delas que é certificadamente do jornal Zero Hora.

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