Conheça os vinhos produzidos com coragem, pioneirismo e tiros de canhão na Campanha do Rio Grande do Sul, no fim do século 19

Tempo de leitura: 5 minutos

Texto de Gilberto Carvalho e edição de Rogerio Ruschel (*)

Meu prezado leitor ou leitora, você vai conhecer a historia de vinhos produzidos com chuva provocada por tiros de canhão entre cavalos e coxilhas no Rio Grande do Sul do século XIX. Atualmente a Campanha Gaúcha é o 2º. maior polo produtor de vinhos do Brasil, com 31% da produção nacional. Na região já são mais de 2 mil hectares de área plantada por cerca de 180 produtores para 17 vinícolas que já tem no mercado mais de 300 rótulos, segundo dados da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha. Há produção de uvas e vinhos em Candiota, Hulha Negra, Bagé, Dom Pedrito, Santana do Livramento, Rosário do Sul, Alegrete, Quaraí, Uruguaiana, Itaqui e Maçambará com uvas cabernet, merlot, tannat, pinot noir, viognier, chardonay e sauvignon blanc. O solo é rico em granito e calcário e a região mantém alguns dos mais antigos vinhedos do Brasil. Investimentos na região tem melhorado a qualidade dos produtos e atraído turistas para a Rota do Vinho da Campanha Gaúcha – veja o mapa abaixo.

Mas poucas pessoas sabem que a produção vinícola nesta região já tem mais de 150 anos, porque mesmo antes da abolição da escravatura a fronteira Oeste do Rio Grande do Sul já produzia vinhos de mesa que eram exportados para os países do Prata (Uruguai, Argentina e Paraguai) e vendidos no Brasil. Segundo registros, em 1888 um empresário espanhol já produzia vinhos na primeira cantina da Quinta do Seival, com paredes de barro e telhado de palha. Esta foi uma das descobertas do publicitário, sociólogo, escritor e poeta Gilberto Carvalho, morador da Serra Gaúcha, sobre sua terra natal, a cidade de Alegrete e região. Veja a seguir o que nos conta Gilberto Carvalho sobre esta historia.

“Alegrete, na fronteira oeste gaúcha e lindeira com a região do Prata, registra a partir do século 19 a produção de vinho em grande escala, de modo pioneiro no Sul do País. Alguns dos primeiros vinhos de mesa nasceram nesta região. Nos sub-distritos rurais denominados Pinheiros, Boa Vista e outros, as famílias Baddo, Bilheri, Maronna, Jacques, Guterres e Carvalho escreveram esta história. Manoel José de Carvalho, em sua “Quinta do Retiro” na Boa Vista, cultivava varietais trazidas desde a Vila do Louro, no Famalicão, em Portugal, donde os Carvalho vieram em 1800.

A empresa agrícola de propriedade de Tácito Sá e Silva, era de grande porte e dotada de instalações grandiosas e linha de produção industrial avantajada para a época, visto que empregava mais de 100 mulheres na época da vindima. A empresa alocou, inclusive, um depósito em São Paulo, para onde seguia grande parte do vinho com a marca TÁCITO, produzidos por Tácito Sá e Silva, o grande artífice do vinho no Alegrete .

O sucesso do empreendimento rendeu medalha de Ouro na Exposições do Centenário da Independência do Rio de Janeiro, em 1922. Seus vinhos com rótulo próprio eram vendidos em caixas com 12 garrafas e barris de 40 litros. As caixas de madeira, fabricadas especialmente na empresa, traziam a marca própria Tácito e seguiam para ser comercializados por todo o estado, Rio de Janeiro, São Paulo, Uruguai e Argentina.

BAGÉ – cidade fronteiriça com o Uruguai, também contou com várias famílias produtoras de vinhos. Destas, o destaque cabe á JOSÉ MARIMON, cujos vinhos obtiveram fama na Região. O plantio das 10 mil mudas, iniciado em 1882, na localidade de Seival, fez seus vinhos serem apreciados já em 1886. A parceria com os filhos João e Joaquim, mais o genro Canedo, resultou na Cantina que permaneceu por longa data, como referência consagrada pelos consumidores.

URUGUAIANA – No século 19, a cidade fronteira à Paso de Los Libres, Argentina, viu por ali ingressar grande número de famílias vindas da Europa através do porto de Buenos Aires. Com elas veio o costume, até hoje encontrado nas casas européias, dos vinhos “do lugar”. Assim, os Guglielmoni, Jacques, Porchettó, Vilella, Prado Lima, Pereira, Carvalho, Bettinelli e outros, marcaram presença a seu tempo, produzindo bons vinhos locais.

Destes, merece especial citação LUIZ BETINELLI. Destacado empreendedor local, era homem muito à frente do seu tempo. Entusiasta, líder e investidor, com ele e seu Grupo, a cidade ganhou inúmeras realizações. O até hoje majestoso prédio do Clube Comercial resultou de maquete trazida da Europa. Betinelli incentivou a produção de vinhos, plantando e industrializando viníferas européias em vários hectares de sua quinta, no local onde hoje se encontra o Bairro Santo Inácio.

Homem de grande visão e empreendedor notável, consta ter adquirido na Europa e Estados Unidos certa técnica para fazer chover em suas videiras. Com isto, a comum estiagem prolongada dos verões da Fronteira, jamais causava danos as suas uvas. Para tanto, realizava sessões de “tiros de canhão “, socados com salitre e Nitrato de Prata. Quando raras eram as nuvens que prenunciavam chuvas, os tiros do “canhão do Seu Betinelli” (foto acima), faziam fama junto da população local, abismada com a genialidade do velho.”

Fontes de Gilberto Carvalho: Arquivo Jornal Gazeta de Alegrete -1888 / História de Uruguaiana – H.Villela / Campos Realengos-Raul Pont/ De Vinho e Vida – Gilberto Carvalho / Arquivos das famílias referidas.

Veja outro elo perdido da vinicultura brasileira aqui: Fazenda dos Cayres, em São Bernardo do Campo: o elo perdido da vinicultura portuguesa no Brasil? http://www.invinoviajas.com/2013/08/fazenda-dos-cayres-em-sao-bernardo-do/

4 Comentários


  1. Ruschel,
    Que beleza saber isso. Dal Pizol fala algo sobre isso em seu livro

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    1. Bom dia Antonio, nossa historia tem estorias surpreendentes mesmo! Abraços

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  2. Parabéns Rogério Ruschel, Belo trabalho.
    Moro no Seival, antiga vinícola “Quinta do Seival” e sou descendente (bisneto de João Marimon) da família Marimon. Tenho documentos e fotos da época e não me importo eme divulga-los.Abraço

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    1. Bom dia, Marco.
      Se você quiser me enviar o material, agradecerei. Posso publicar na forma de comentários, reportagens ou notas, mas penso em escrever um livro para preservar a memória de nossa indústria.
      Sugiro que me envie cópias, para preservar os originais de acidentes dos correios.
      Meu endereço postal é rruschel@uol.com.br, pelo qual posso informar meu endereço postal.
      Muito obrigado.
      Rogerio Ruschel

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