Conheça o misterioso Morro do Chapéu, na Chapada Diamantina, Bahia, onde estão sendo produzidos vinhos de altitude com alma francesa

Tempo de leitura: 5 minutos

Por Rogerio Ruschel (*)

Meu prezado leitor ou leitora, em breve vamos poder abrir uma garrafa de um Syrah ou Sauvignon Blanc produzido em plena caatinga nordestina (na verdade um bioma que mistura caatinga com cerrado) em parceria com franceses da Champanhe, em um novo terroir basileiro. Vou contar esta história. Em maio de 2010 centenas de mudas de vitis viniferas vindas da região de Champagne, na França, foram plantadas em uma área de 1,4 hectares de uma plantação experimental de produção vitivinícola em Morro do Chapéu, município com 36 mil moradores e porta de entrada da Chapada Diamantina, Bahia, no nordeste brasileiro.

Era o inicio formal do “Projeto de Avaliação Técnica e Econômica de Videiras Viníferas e de Culturas de Clima Temperado em Morro do Chapéu” que vai gerar vinhos de altitude. Na época foram plantadas 10 tipos de uvas para pesquisa: Pinot Noir, Cabernet Sauvignon, Petit Verdot, Tannat, Malbec, Merlot, Syrah, Sauvignon Blanc, Chardonnay e Muscat Petit Grain.

Colhidas no final de 2012, as uvas foram levadas para o Laboratório de Enologia da Embrapa Semiárido em Petrolina, avaliadas e transformadas nas primeiras mil garrafas de vinhos e espumantes de Morro do Chapéu. As parreiras tiveram excelente desenvolvimento, com destaque para as variedades Syrah (acima), Chardonnay (abaixo) e Sauvignon Blanc. Aliás, o desempenho inicial tem chamado a atenção de técnicos e de grupos empresariais ligados à vitivinicultura. As condições climáticas e de altitude em Morro do Chapéu (1.200 m acima do mar) são ideais para uvas de boa qualidade (frio de noite, quente de dia) e a região recebe duas vezes mais chuva do que Petrolina e Juazeiro, o principal pólo vinícola do Nordeste. Quer dizer, está nascendo outro terroir, distinto de tudo que já temos no Brasil.

O projeto é do governo do Estado da Bahia com o apoio da Embrapa e da prefeitura, conta com a cooperação técnica da União das Cooperativas de Champagne, na França, e é executado pela Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA). O projeto tem também uma parceria com produtores da região de Les Ricey, da Champanhe, França, que ajudaram a implantação de uma cooperativa, em dezembro de 2016, com 26 produtores da região. Na foto abaixo comitiva de brasileiros visitando a Cooperativa de Ricey.

Antes dos franceses, em 2013 a região recebeu a visita de uma comitiva da AJAP – Associação dos Jovens Agricultores de Portugal – instituição que reúne cerca de 13.000 produtores agrícolas – interessados em conhecer a região e trocar experiências, que não passou disso – veja foto abaixo, o grupo de portugueses. Hoje, março de 2017, as experiências e pesquisas já começam a se transformar em realidade.

A primeira safra comercial dos vinhos de Morro do Chapéu está prevista para chegar ao mercado em 2022 e a região vai ser o segundo polo produtor de vinhos da Bahia, ao lado do Vale do São Francisco, que produz atualmente 7 milhões de garrafas por ano e impressiona os europeus, porque é o único lugar do mundo que tem duas safras por ano. Isto quer dizer que em breve poderemos ter outro roteiro de enoturismo no nordeste do Brasil.

E este roteiro vai oferecer atrativos naturais de grande beleza a começar pelos morros típicos da Chapada Diamantina como o da foto da abertura da reportagem; rochas e cavernas com registros de arte rupestre – acima – que podem ganhar o título de Geoparque pela UNESCO. Outra atração conhecida é a Gruta dos Brejões, uma das mais notáveis do Brasil com 7.750 metros de extensão cuja entrada, que mede 60 metros de largura por 123 metros de altura, é a segunda maior do Brasil (foto abaixo, de Vilma Alves/Flickr).

Além dela você vai poder conhecer o Buraco do Possidônio, uma imensa cratera de 60 metros de profundidade que tem em seu interior árvores de grande porte como o cedro; muitas cachoeiras como a Cachoeira do Ferro Doido (tombado como Monumento Natural), Cachoeira do Agreste e Cachoeira de Domingos Lopes. Dois outros importantes recursos naturais também atraem turistas mais qualificados: orquídeas e colibiris. O paisagista Burle Marx dizia que na região estão algumas das maiores concentrações de orquídeas por metro quadrado do país e o naturalista alemão Augusto Ruschi pesquisou o colibri dourado, uma espécie rara de beija-flor da região.    

Com tudo isso a região tem inúmeras possibilidades para a prática do turismo ecológico, de contemplação e aventuras radicais. Talvez você possa fazer também até fondue de queijos porque a cidade é uma das poucas da Bahia (ao lado de Piatã e Vitória da Conquista) que apresenta temperaturas baixas. E para terminar, mais um atrativo diferenciado para uma Rota do Vinho no Brasil: a região tem muitos registros da presença de discos-voadores. Pois é: desde o princípio do século passado já ocorriam fatos intrigantes como charutos cintilantes no céu e discos voadores, muitas luzes e ruídos estranhos, classificados como manifestações ufológicas – e antigos moradores relatavam que no passado, ao anoitecer, todos se trancavam em casa e ninguém se arriscava a andar pelos campos.

Porisso na entrada da cidade há uma réplica de um disco voador (foto acima) indicando que lá está o Centro de Pesquisas Ufológicas, sede do Circuito de Pesquisa Porto Cristal. Será que Morro do chapéu vai ter que repetir o que o prefeito de uma das mais respeitadas regiões produtoras de vinhos do mundo, Chateauneuf-du-Pape, que em 1954 criou uma lei proibindo o pouso de discos voadores (“de qualquer nacionalidade”) em seus vinhedos. Não acredita? Veja aqui: http://www.invinoviajas.com/2015/03/os-ets-e-o-nosso-vinho-o-caso-de/

Brindo ao novo terroir deste impressioanante país chamado Brasil!

17 Comentários


  1. Só uma correção, Morro do Chapéu não é “única da Bahia que apresenta temperaturas baixas”, Piatã e Vitória da Conquista respectivamente são mais frias e há algum tempo as duas não tem chegado a 5 graus facilmente.

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    1. Piatã é a cidade mais fria do nordeste, seguida por Morro e Vitória da Conquista

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  2. Mais duas retificações:
    A foto da capa da matéria não é de nenhum morro no teritorio de Morro do Chapéu, e assim como praticamente toda a Chapada Diamantina em Morro do Chapéu existe vários biomas, incluído a vegetação de caatinga, mas onde existe a plantação de uvas e mais próximo da vegetação e clima de cerrado.

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    1. Embora outras fontes falavam claramente em caatinga, corrigi a informação para o leitor saber que o bioma incorpora outros elementos e vai além disso; e deixei claro que a montanha da capa é parte das formações da Chapada Diamantina, embora a silhueta do morro apareça em logotipos ligados à cidade. Obrigado pela correção, Aragonez. Abraço, Rogerio

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  3. Excelente reportagem criando muitas perspectivas para esta simpática cidade.Vamos fazer acontecer!!!

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  4. Maravilha, nós moradores de Morro do Chapéu, acreditamos no projeto como um fator de desenvolvimento do município. Que grandes safras sejam colhidas e bons vinhos sejam produzidos, e, que nossa Morro do Chapéu apareça no cenário mundial.

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  5. Ruschel, parabens pela otima matéria. Agora mais uma razão para cultivar a baianidade.

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  6. Rogério,
    Parabenizo pela matéria: na mesma consta que a primeira safra “comercial” é prevista para um longinquo 2022…
    Você tem conhecimento da existência de pequenas quantidades das safras anteriores disponiveis para degustação e compra em pequena escala?
    Obrigado.

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    1. Ola Roberto. Esta é a informação divulgada. Provavelmente estejam produzindo pequenas safras desde já, mas talvez não queiram colocar a venda. Veja se consegue um contato direto com os responsáveis por internet.
      Abraços, Rogerio

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