Mudanças climáticas provocam perdas anuais de mais de 10 bilhões de Euros em todo o mundo; Brasil tem baixos riscos

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Por Rogerio Ruschel

Meu prezado leitor ou leitora, é lamentável, mas verdadeiro: todos os anos, a indústria do vinho sofre perdas no valor de mais de 10 bilhões de Euros devido a desastres naturais extremos causados por mudanças climáticas como geadas, granizo, seca, incêndios florestais e fenômenos meteorológicos – e as perdas poderão ser até mesmo superiores a isso. Segundo a pesquisa WineRisk, não há praticamente nenhuma região vinícola no mundo que não esteja exposta a condições climáticas extremas ou desastres naturais. As regiões vinícolas de Mendoza e San Juan, na Argentina, foram considerados as que apresentam maiores riscos em todo o mundo.

A pesquisa foi conduzida por uma equipe europeia-australiana multidisciplinar de cientistas liderados pelo Dr. James Daniell do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT) da Alemanha, e seus resultados foram apresentados recentemente na conferência anual da União de Geociências Europeia (EGU) em Viena. O objetivo da pesquisa, realizada de maneira independente, é ajudar enólogos, vinícolas, empresas e governos a se prepararem adequadamente para os riscos naturais que serão enfrentados, e reduzir as perdas.

Os primeiros resultados do estudo revelam que depois de Mendoza e San Juan, na Argentina, as regiões vinícolas de maior risco devido a eventos climáticos extremos são Kakheti e Racha na Geórgia (Kakheti é o lugar do planeta onde surgiu o vinho!), seguidas por Cahul, no sul na Moldávia e no noroeste da Eslovênia, Yaruquí no Equador e Nagano, no Japão. Veja o mapa de riscos na abertura deste artigo.

Os autores da pesquisa acreditam que tempestades de granizo (veja mapa acima) são um dos maiores riscos naturais a que são submetidos os produtores de vinho da Europa, e grandes produtores como França e Itália sofreram enormes perdas nos últimos cinco anos devido a granizo e geada, especialmente nas regiões de Borgonha e Piemonte. Perdas devidas ao granizo no período de a 2012 a 2016 em algumas vinhas totalizaram 50 a 90 por cento do valor da cultura, além de causar danos a longo prazo para muitas vinhas velhas.

Mas o problema não afeta apenas a Europa: quase todas as regiões vinícolas são afetados por danos devido ao granizo, em maior ou menor grau, pelo menos uma vez por ano, segundo o relatório. Segundo os pesquisadores, redes anti-granizo podem salvar colheitas na maioria dos casos e o custo-benefício de maneira geral, de acordo com a análise deste estudo, mostra que para a produção de vinhos de alta qualidade o uso de redes anti-granizo compensa as possíveis perdas. Mas para vinhos mais simples devem ser estudadas outras metodologias porque o custo não compensa.

Os terremotos também têm um grande impacto sobre a indústria, especialmente em termos de infra-estrutura. Os principais países produtores com maior risco de terremotos são Estados Unidos/Califórnia, Chile, Japão, Turquia, Grécia e Albânia. Um exemplo: mais de 125 milhões de litros de vinho foram perdidos no Chile em 2010 por tremores de terra, principalmente devido à falta de tanques de aço. Se equipamentos de infra-estrutura tivessem sido planejados com design anti-terremoto poderiam ter sido salvos muitos milhões de litros, advertiu o estudo.

Mecanismos de estabilização utilizados em estruturas para evitar que caiam em caso de terremotos não são muito caros e podem economizar milhões de dólares em perdas. In Vino Viajas publicou reportagem sobre este assunto aqui: http://migre.me/wwPtL

Veja acima o mapa de riscos de geadas e frio excessivo. No lado otimista, o relatório observa que as mudanças climáticas também poderiam trazer efeitos positivos para a indústria do vinho em algumas regiões específicas. Os investigadores acreditam que a produção de vinho sofrerá (já está sofrendo, na verdade) uma mudança de sul para norte – uma migração. Regiões como o Reino Unido, Canadá e norte da China provavelmente vão aumentar a produção, aumentar sua quota de mercado e a qualidade da produção, dizem os autores.

Os pesquisadores também acreditam que muitas vinícolas serão capazes de se adaptar para driblar as mudanças climáticas, alterando variedades de uvas e usando tecnologias inovadoras para melhorar a produção e reduzir os danos causados ​​por agentes patogênicos e eventos climáticos extremos.

O estudo foi extensivo e também incluiu outros riscos para a indústria do vinho como os incêndios florestais que provocam danos direta ou indiretamente nos vinhedos por causa da fumaça, e os efeitos das inundações nas vinhas. As cinco regiões mais afetadas por incêndios florestais no mundo são África do Sul (Rio Orange, Olifants River), Portugal (Alentejo, Alto Trás-os-Montes), Chile (Valparaiso, Bio-Bio). Austrália (Tumbarumba, Yarra Valley), Cazaquistão (Sul) e Moldávia.

A pesquisa também alertou para um possível aumento na incidência de erupções vulcânicas que podem ter um maior impacto global sobre a indústria do vinho no futuro.
Não brindo a isso…

 

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