Conheça o legado de Carlos Cabral ao mundo dos vinhos que começa em adegas, se multiplica em salas de aula e se eterniza em livros e bibliotecas.

Tempo de leitura: 7 minutos

Por Rogerio Ruschel

Meu prezado leitor ou leitora, Carlos Cabral, o simpático cavalheiro da foto abaixo, é provavelmente o mais importante educador e formador de opinião sobre vinhos no Brasil – e uma das pessoas mais gentis e educadas que já conheci. É uma lenda, e quem gosta de vinhos precisa conhecer seu legado.

Carlos Ernento Cabral de Mello é um ex-administrador hospitalar que se apaixonou pelo mundo dos vinhos em 1969 e dedicou-se de tal forma que a historia do vinho no Brasil deveria ser contada em duas Épocas, Antes e Depois de Carlos Cabral – ACC. e DCC. E para simplificar, sugiro que o ano Zero da troca das Épocas seja o ano de 1980, quando Cabral fundou a primeira confraria de vinhos brasileira, a Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho (SBAV).

Este foi seu primeiro legado coletivo para todos nós. Como diretor de vinhos do Pão de Açucar, ao longo de sua vida Cabral visitou centenas de adegas e avaliou pelo menos 10.000 rótulos para escolher quais vinhos iriam para as prateleiras da rede de supermercados. Para chegar a todas as lojas em todo o país, ele teve que criar sua própria ajuda e se tornou responsável pela formação de mais de 300 compradores especializados em vinhos – profissionais que hoje estão em dezenas de lugares do país popularizando o vinho, o que já é outro legado de Cabral.

Mas outra importante parte do legado está na educação: Cabral é também o mais proficuo e dedicado educador para o consumo de vinhos. Ele vem fazendo este trabalho através da apresentação de dezenas de palestras sempre muito concorridas desde a aprimeira, em 1982 no Sesc-Pompéia, utilizando slides oferecidos pelo Icep Portugal; e da gravação de mais de 150 videos de educação para o consumo de vinhos, queijos, harmonizacões e etiqueta.

Apenas como exemplo, um deles, o Episódio Boas Maneiras número 12 já teve mais 215.000 visualizações! Mas uma parte estratégica, eventualmente menos conhecida mas não menos importante de seu trabalho ficará de maneira permanente como um legado para as futuras gerações: os livros escritos por este surpreendente profissional.

Em quase 40 anos de estudo e pesquisa, Carlos Cabral escreveu vários livros – e pelo menos quatro deles estão na minha biblioteca e na foto acima. A primeira obra de Carlos Cabral sobre o vinho do Porto foi o livro “Porto: um Vinho e Sua Imagem – um passeio pelos rótulos da Coleção Soromenho”, publicado em 2006 pela Editora de Cultura, e que já tem pelo menos cinco edições porque o meu exemplar, autografado pelo autor, é de 2015. Em 190 páginas de elegante papel couchê, Cabral retrata mais de 250 anos da história do Vinho do Porto e das casas produtoras desde o século XVII, ilustrada com mais de 300 rótulos.

Augusto Pinto Soromenho Junior, o colecionador que dá titulo à obra, foi um dos administradores da Real Companhia Velha (sucessora da empesa criada pelo Marques do Pombal em 1756) e que se tornou grande amigo de Cabral. Cabral parecia um adolescente apaixonado me falando sobre um momento da pesquisa quando Soromenho disse a ele, que estava acompanhado de sua esposa Leda: “Vocês tem 30 minutos para pegar tudo que necessitam”. Um dos recolhidos foi o rótulo abaixo; e algum tempo depois todos os rótulos que permaneceram no depósito haviam sido descartados – Cabral salvou os que conseguiu retirar…

E foi assim que os atuais (estimados) cerca de 8.000 rótulos da coleção particular do autor deu um salto; mas a coleção começou no inicio dos anos 1970 quando Cabral enviou dezenas de cartas para vinícolas de Vila Nova de Gaia, Portugal, solicitando informações. Só no ano de 1984 ele enviou 1.120 cartas, todas manuscritas! Cabral relata no livro o que eu, 40 anos depois, como jornalista em tempos de internet, já descobri: “Quando você envia uma carta para uma empresa de vinho do Porto eles respondem”, até porque são educados.

A obra foi dividida em “salas expositivas” e o leitor é convidado a degustar os diversos rótulos separados por temas, ao longo do tempo e tambem proporciona um agradável e enriquecedor passeio pela história da cidade do Porto e sua região vinhateira.

Talvez o livro mais badalado de Carlos Cabral seja o monumental “Dicionário Ilustrado do Vinho do Porto” , escrito em parceria com Manuel Pintão, e que, em 568 páginas apresenta o mais completo estudo sobre o vinho do Porto no mundo. Lançado em 2011 também pela Editora de Cultura no Brasil (acima), já está na quinta edição e também foi publicado em Portugal pela Porto Editora (abaixo). Aliás, Cabral é membro de várias Confrarias portuguesas, tendo atingido o titulo máximo de Infanção da Confraria do Vinho do Porto.

O livro exigiu cinco anos de pesquisas específicas, e retrata várias décadas de paixão dos autores. A obra tem mais de 5.000 verbetes e cobre 33 grandes temas – de Aplicações Terapêuticas a Vasilhas, Medidas e Afins, muitos dos quais ilustrados com fotos, rótulos, desenhos, fac-similes, quadros e reproduções históricas – um legítimo Dicionário Ilustrado. Cabral me disse também que já tem mais de 300 verbetes novos para a próxima edição, e que a tão aguardada exposição dos rótulos de vinhos do Porto deverá ser realizada em outubro de 2018 em um Museu de São Paulo.

Outro livro importante de pesquisa é “Presença do Vinho no Brasil – um Pouco de História” (foto acima) com informações inéditas sobre quando, como, por que e até onde o brasileiro consumiu, produziu e comercializou vinhos em cinco séculos de história. Meu exemplar, da segunda edição, é de 2007 e a Editora é a Cultura. Cabral lembra os vinhos e licores de frutas e raízes criados pelos índios brasileiros, o problema dos jesuítas que precisavam de vinho de uva para rezar missa, o consumo de vinhos carissimos pela Casa Real no Segundo Império, historias dos falsificadores de vinhos no início da república, até as raízes da vitivinicultura nacional. Um show de historia escrito de maneira elegante e inteligente, com um resumo em francês.

Mas na minha opinião a obra de pesquisa mais reveladora de Carlos Cabral é o impressionante livro “A mesa e a diplomacia brasileira: o pão e o vinho da concórdia”, que busca retratar a presença e o papel do vinho nos banquetes e na diplomacia do Brasil. A obra com 264 páginas e muito elegante, explora os 6,5 milhões de documentos do Museu Histórico e Diplomático do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, sediado no Palácio Itamaraty do Rio de Janeiro com resultados curiosos e reveladores, como fotos de banquetes de vários ex-presidentes com personalidades globais, de artistas a presidentes, rainhas e desportistas.

O livro faz também uma revelação interessante: a diplomacia brasileira sempre manteve padrão global que ajudou a construir seu prestigio internacional desde os tempos de Rui Barbosa. Isso até a “era do PT”. Pois assim que o presidente Lula assumiu foi abandonada a finesse internacional dos banquetes da diplomacia brasileira, porque Sua Excelência eliminou os jantares à francesa, com garçons e tudo o mais que são servidos no mundo todo, e as autoridades estrangeiras passaram a fazer filas para se servir em jantares com serviço de buffet. Isso mesmo, serviço de buffet. Aliás, o presidente Lula não gostava muito de vinhos, preferia caipirinha e muitas fotos comprovam isso …

Cabral também vem produzindo livros de “auto-ajuda” para consumidores, a série “VINHO E GASTRONOMIA: GUIA PRÁTICO DE HARMONIZAÇAO”, dos quais já foram publicados tres títulos: o primeiro, de 2004, em parceria com Carlos Milreu e outros dois, de 2006 e 2009, em parceria com Paulo Milreu.

Meu prezado leitor ou leitora: quando o tema tem substância como o legado cultural de uma pessoa que ama vinhos, eu escrevo muito. Me desculpe por isso, mas a dedicação de Carlos Cabral ao vinho merece respeito.

E é por isso que considero que a historia do vinho no Brasil deveria ser contada em duas Épocas, Antes e Depois de Carlos Cabral – ACC. e DCC.

E que Carlos Cabral já merece uma biografia a ser feita por algum felizardo…

6 Comentários


  1. O serviço era à francesa e provavelmente o vinho também.
    Apesar de vinho não ser a preferencia do ex-presidente, ele instituiu a obrigatoriedade de servir vinhos brasileiros nos eventos oficiais do governo federal.

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    1. Vinhos brasileiros já vinham sendo oferecidos antes do Lula, com certeza. Grato pela leitura, Hector. Abraços, Rogerio

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    1. Muito obrigado, Fioravanti. Você é sempre muito gentil. Abraços, Rogerio

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  2. Ruschel tomei conhecimento de sua pessoa e de seus artigos ha pouco tempo, primeiramente sobre os vinhos da Geórgia e agora com respeito a Galvão Bueno. Assim é o Rio grande cheio de coisas boas e amigas. Um abraço dum pequeno vinhateiro.

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    1. Obrigado, Azevedo. Pequeno vinhateiro é uma dimensão de volume, não de qualidade. Abraços

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