Como as bolas-de-berlim de Viana do Castelo seduziram Jorge Amado e aproximaram pessoas e culturas, fazendo amigos no Brasil e Portugal

Tempo de leitura: 6 minutos

Por Rogerio Ruschel

Dedicado a Antonio de Almeida e Silva, Presidente da Comunidade Luso-Brasileira do Estado de São Paulo

Meu prezado leitor ou leitora, o mes de agosto está me trazendo recordações literárias, curiosas e portuguesas. Explico: em agosto de 2015 conheci a cidade de Viana do Castelo em Portugal, e lá, degustando as famosos bolas-de-berlim numa mesa da pastelaria de Manuel Natário, descobri que Jorge Amado – nascido em agosto de 1912 e falecido em agosto de 2001 – também estivera naquela mesma mesa em um mês de agosto do fim da década de 1980, experimentando os doces – e fazendo amigos para o resto da vida.

O grande escritor brasileiro Jorge Amado (foto acima) foi mesmo um cidadão do mundo e sua obra lhe trouxe o reconhecimento internacional. Como politico com pensamento comunista teve que morar em outros paises (como na Tchecoeslovaquia), mas encontrou conforto em quatro recantos do mundo: na Praia de Rio Vermelho de Salvador, no Rio de Janeiro, no bairro Marais de Paris e em Viana do Castelo, Portugal (na foto abaixo, a Basilica de Santa Luzia e a foz do rio Minho).

Seus 36 livros publicados entre 1931 e 2008 já foram editada em 55 países, traduzidos para 49 idiomas e transformados em filmes e novelas realizados por diretores da hollywoodiana Metro Goldwyn Mayer e da brasileira Rede Globo de Televisão. Isto lhe trouxe muitos prêmios, mas Jorge Amado recusou badalações e até mesmo a indicação para o Premio Nobel de Literatura porque dizia que “Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem”.

Este comportamento de homem simples pode dar algumas pistas para explicar sua grande paixão por um país com muita autenticidade como Portugal, que lhe rendeu homenagens como os titulos de Comendador, Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada e Doutor Honoris Causa de universidades. Jorge Amado passeava muito pelo país onde tinha muitos amigos como José Saramago, que aliás também recebeu o Prêmio Camões em 1995, um ano depois do baiano.

Mas em Portugal Jorge Amado descobriu um recanto mágico: a cidade de Viana do Castelo, no Minho, Norte de Portugal, hoje com menos de 40.000 moradores. Segundo a crônica local, Jorge Amado esteve em Viana do Castelo pelo menos 11 vezes e fez muitos amigos. Um deles foi exatamente Manuel Natário o “Manelzinho Natário”, o confeiteiro criador dos doces deliciosos da pastelaria criada em 1950 (foto acima e abaixo), na Rua Manuel Espregueira, centro da cidade, pertinho do Museu do Traje, onde o escritor brasileiro, passeando com sua esposa Zelia Gatai, conheceu as bolas-de-berlim que mais tarde ajudaria a internacionalizar. Pelo que me disseram, Jorge Amado sentou naquela mesa do canto, onde eu também sentei…

Quem visita a pastelaria encontra fotos de Jorge Amado pelas paredes (acima). Da convivência com Manuel Natário (falecido em 2003), o baiano acabaria por colher inspiração para uma das personagens do seu romance Tocaia Grande, o destemido “Capitão Natário”, a quem chamou de “capitão de doces e salgados, comandante do pão-de-ló, mestre do bem-comer”. Aliás, na mesma obra, Jorge Amado homenageou outro amigo de Viana, Nuno Lima de Carvalho, que virou o personagem “Frei Nuno”.

Pois Jorge Amado, que gostava de cacau e chocolate, de gabrielas, cravos e canelas, de dona Flor e de Tietas do agreste ficou freguês das “empadinhas de lampreia, dos rissóis de camarão, dos bolinhos de bacalhau, dos folhados de carne e de camarão, dos vigaristas e da bola de carne com vitela” que Jorge Amado encontrava no “santuário de Manelzinho Natário”. Gostava também do pão-de-ló, que chegou a levar para o Brasil, para que o então Presidente José Sarney pudesse provar – e que hoje você pode pedir no balcão como o pão de ló de Jorge Amado. E segundo dizem, quando ele não estava em Viana do Castelo, o amigo Natário dava um jeito de todas as semanas enviar vários doces para o amigo no Brasil.

Esta amizade de Jorge Amado com a cidade foi reconhecida de diferentes maneiras: ele foi distinguido com o titulo de cidadão de mérito de Viana do Castelo em 1981, emprestou seu nome para uma rua da cidade e para uma ala da moderna biblioteca projetada pelo arquiteto Siza Vieira que fica olhando para a frente ribeirinha da cidade – será que de alguma maneira vai lembrar a casa do escritor, na Casa de Rio Vermelho (hoje um museu), em Salvador? Na foto acima, um passeio pelo rio Minho, na foz de Viana e na foto abaixo uma homenagem da cidade aos morotos durante a Revolução dos Cravos.

Outra homenagem, feita em 2012, ano do centenário de nascimento, provavelmente agradaria Jorge Amado: ele foi homenageado nas Festas da Agonia de Viana do Castelo, um evento do qual já tinha sido presidente de Comissão, em ano anterior. É algo assim como ser tema de uma escola de samba no Brasil – o que, aliás, aconteceu, quando Amado foi tema da Imperatriz Leopoldina, também em 2012.      

As Festas da Agonia que incluem a Romaria de Nossa Senhora d’Agonia (acima e abaixo) me lembram alguma coisa da Bahia, poeque são assim descritas por um jornal local: “A procissão ao mar e as ruas da Ribeira, enfeitadas com os tapetes floridos, são testemunhos da profunda devoção religiosa. A etnografia tem o seu espaço nos desfiles do Cortejo Etnográfico e na Festa do Traje (fotos acima e abaixo), onde se pode admirar os belos trajes de noiva, mordoma e lavradeira, vestidos por lindas minhotas que ostentam peitos repletos de autênticas obras de arte em ouro. A festa continua…tocam as concertinas e os bombos, dançam as lavradeiras…”

Este cenário me parece coisa de um baiano que casualmente teria nascido em Viana do Castelo, um acontecimento que só Deus poderia permitir que acontecesse – e que provavelmente seria num mes de agosto…

Meu prezado amigo ou amiga, duas lembranças para quando você for a Viana do Castelo (saiba mais aqui): passeie sem pressa porque porque você está numa cidade integrada a rede Cittaslow (saiba mais aqui) e inclua no roteiro turístico um passeio aos jardins de Ponte de Lima na Rota do Vinho Verde (saiba mais aqui).

Brindo aos amigos de Viana do Castelo através de seu prefeito, o Presidente do Concelho José Maria Costa, que me recebeu muito bem em 2015 – Salve Jorge!

Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas, esteve em Viana do Castelo a convite da Aenotur – Associação Internacional de Enoturismo (presidida na época por José Maria Costa) onde fez palestra e acompanhou a inauguração da sede da entidade, atualmente presidida pela brasileira Ivane Fávero.

1 Comentário


  1. Ola!! Gostei muito da sua publicação, sempre achei que vinho também é cultura! Felicidades

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