Diego Bertolini, do Ibravin: “90 milhões de brasileiros poderiam tomar vinho pelo menos uma vez por mes, mas não sabem disso; precisamos dizer para eles.”

Tempo de leitura: 7 minutos

Por Rogerio Ruschel, Editor.

Entrevista exclusiva com Diego Bertolini, do Ibravin.

Meu caro leitor ou leitora, há séculos os produtores de vinhos usam o marketing para transformar o vinho em uma bebida para “momentos especiais”, que deve ser consumida com alimentos especiais. Correto ou não, o fato é que a base de consumidores não está se renovando e é necessário conquistar novos consumidores. Pois o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) está realizando uma campanha muito corajosa no Brasil para dismitificar o consumo e atrair consumidores de vinho da geração Millenial, segmento de consumidores nascidos nas décadas de 1980 e 1990 e responsáveis por 52% do poder de compra no mercado interno brasileiro. Segundo pesquisas, eles podem entre 9 e 14 milhões de novos consumidores no pais. Já escrevi sobre esta iniciativa aqui no In Vino Viajas e em minha coluna no portal espanhol Vinetur, atraindo muita atenção. Leitores me perguntam: porque agora? O Ibravin tem munição para manter a campanha? Para oferecer respostas entrevistei com exclusividade Diego Bertolini (foto de abertura), gerente de promoção do Ibravin.

Diego Bertolini é gerente de promoção de mercado interno e externo do Instituto Brasileiro do Vinho (IBRAVIN). Nascido em Bento Gonçalves é filho de vitivicultores e trabalhou com a familia. Formado em Administração de Empresas, fez MBA em Gestão de Negócios pela FGV, cursa o Wine & Spirits Global MBA da Kedge Bussines School e tem pós-graduação em Marketing de Vinhos. Fez os níveis I, II e III da Wine & Spirit Education Trust e é sommelier pela Federação Italiana de Sommelier. Fez visitas técnicas em todas as regiões vinícolas do Brasil e na Argentina, Chile, Uruguai, África do Sul, Canadá, Estados Unidos, França, Austrália e Itália. Tem vivência e experiência; trabalhou no marketing da Cooperativa Garibaldi, portanto conhece os produtores e sabe o que está fazendo. É bem informado e está pensando fora da caixinha, o que é bem vindo em um setor que precisa sacudir a poeira da inércia.

R. Ruschel – Qual a estratégia do Ibravin para a afirmação e crescimento dos vinhos brasileiros no mercado externo; quais os paises prioritários?

D. Bertolini – Hoje os principais mercados de exportação para vinhos brasileiros são Paraguai, Colombia, Peru e Chile (nosso maior comprador de espumantes) na America Latina, por causa das facilidades de logistica, menores custos de frete, de acordos relacionados a impostos e a proximidades culturais com latinos. Depois vem os Estados Unidos e a China. Os vinhos brasileiros são mais frescos, tem menos frutas citricas, mais acidez e isso agrada ao paladar latino. Nossos vinhos são mais alegres e nossos espumantes estão agradando muito no mundo todo.

R. Ruschel – E porque os espumantes brasileiros estão se saindo tão bem nos mercados interno e externo?

D. Bertolini – Parece ser a nossa vocação, são vinhos que melhor refletem nossa identidade, porque são produtos com mais frescor, tanto os produzidos na Campanha gaúcha quanto na Serra. Conseguimos acidez natural, sem muito ácido tartárico. Nossa uvas chardonnay, moscato, riesling e pinot noir, utilizadas para espumantes, são bem adaptadas aos terroirs. O Moscato, similar ao moscatel de Portugal, está crescendo, já tem uma região de Indicação de Procedência própria, estamos melhorando a cada dia. Creio que o brasileiro tem o paladar da cana de açúcar, uma tradição trazida por portugueses. Gostamos do residual de açúcar e o moscatel caiu no gosto. O moscatel brasileiro é um produto de sobremesa, mas também de coquetel, tem acidez ao gosto do brasileiro, é um produto versátil, fresco.

R. Ruschel –Quais os resultados esperados para esta campanha de novo posicionamento dos vinhos junto aos Millenials?

D. Bertolini – Estamos trabalhando com uma visão de longo prazo. Realizamos e estudamos pesquisas que nos indicavam essa necessidade de desmistificar o consumo para se aproximar de novas gerações de consumidores. E nos últimos dois anos trabalhamos em âmbito interno trocando ideias, convencendo produtores, levando o assunto para reuniões, mostrando a necessidade de tomar a iniciativa.

Finalmente tomamos a decisão estratégica de fazer o que o mercado quer e não o que os produtores desejam. O Brasil tem 32 milhões de pessoas que tomam vinho pelo menos uma vez por mes, mas 90 milhões de brasileiros que teriam condições de tomar vinho pelo menos uma vez por mes não tem contato com a categoria. Precisamos nos aproximar destas pessoas, conquistar uma parcela destes consumidores potenciais nos próximos anos e os Millenials podem ser uma boa aposta neste momento.

A hora é agora. Temos evoluido no Brasil, vendendo cada vez menos vinho a granel. Entre 2008 e 2017 tivemos um crescimento real de 240% com produtos com alto valor agregado. Estamos prontos para atrair para o segmento os consumdores potenciais que não tem contato com o vinho. E se não aumentarmos a base de consumo não vamos nunca ultrapassar a barreira atual de consumo de um pouco menos de 2 litros por ano por pessoa.

R. Ruschel – Como chegar aos Millenials, e como conquistar sua confiança?

D. Bertolini – Estes são consumidores com bom potencial. Millenials gostam do que chamamos aqui internamente no Ibravin de “Filtro Instagram, mostrar produtos bonitos na foto, como rosés, espumantes e brancos. Estive ontem uma champanheria na Lapa, no Rio de Janeiro, e 70% dos vinhos consumidos eram rosés, e não só por consumidores mulheres. O Filtro Instagram deixa o produto mais bonito e atraente. Para chegar aos Millenials temos uma campanha que propõe a desmisticacação do vinho, que vai veicular fortemente em escala nacional em agosto (com 55 milhões de impactos) e depois retorna em novembro. Sabemos que vamos colher os melhores resultados só daqui a 8 ou 10 anos, mas temos que começar.

Mas não vamos suspender nossas outras ações, aquelas especializadas como o concurso do melhor sommelier do Brasil, participação e realização de premios e concursos, capacitação de garçons e sommeliers e outros.

R. Ruschel – Qual é o próximo passo?

D. Bertolini – Agora temos que focar em convencer os produtores a realizar ações junto a geração Millenial, porque o Ibravin pode começar a mobilização, mas os produtores é que tem que mostrar seus produtos e fazer seu marketing. A Vinicola Cainelli, daqui da Serra Gaúcha, já realiza ações alinhadas com nossa campanha, propondo que “Você decide a maneira certa de consumir nossos vinhos”. Esperamos que outros produtores se alinhem com essa proposta o mais rápido possivel.

R. Ruschel – Uma pergunta para meus leitores portugueses: qual a perspectiva de vendas e quais as oportunidades de negócios há no mercado português para os vinhos brasileiros?

D. Bertolini – Atualmente o mercado português não é um alvo prioritário dos produtores brasileiros porque não temos exportadores trabalhando este mercado. Creio que é porque ainda é considerado um mercado de nicho, e não um mercado de volume; talvez alguma coisa de espumantes. Produtores brasileiros poderiam trabalhar Portugal como mercado de compra e mercado de acesso a Europa. As Vinícolas Miolo e a Pizatto, por exemplo, exportam regularmente para outros paises europeus como a França e a Inglaterra. Mas o suco de uva brasileiro tem potencial  no mercado português!

Meu caro leitor, desejo sorte a Ibravin e brindo à vontade de mudar!Saiba mais sobre a campanha aqui: http://www.invinoviajas.com/2018/08/ibravin-rompe-a-inercia/

Veja o filme da campanha para a TV aqui: https://www.youtube.com/watch?v=czW1D2bjByw

 

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