Milton Mira, autor de “Viagens, Livros, História”, fala sobre o prazer em conhecer terroirs, castas, processos, histórias e culturas no enoturismo

Tempo de leitura: 7 minutos

Por Rogerio Ruschel

Exclusivo – Entrevista com Milton Mira, enófilo, editor e escritor. Milton Mira de Assumpção Filho é um grande apreciador de vinhos. Economista com especialização nos Estados Unidos e Europa em 1984 criou a Makron Books que fez história no Brasil publicando mais de 1.800 autores brasileiros e estrangeiros, com muitas obras de administração e negócios das editoras McGraw-Hill e Macmillan. Fundador e presidente da M. Books, em setembro de 2017 lançou seu quinto livro como autor: o guia “Viagens Livros História”. Na foto acima, Mira visita os Vinhedos da Romanee Conti, na Borgonha. Milton Mira concedeu esta entrevista exclusiva para os leitores de In Vino Viajas.R. Ruschel – Como o seu negócio é publicar livros, este livro é um hobby que virou negócio, ou um negócio que você considera um hobby?

Milton Mira – É um hobby que acabou virando negócio. Tudo começou quando decidi dividir com amigos, através do meu blog, as narrativas das minhas viagens para as regiões vinícolas. Tenho muito amigos amantes do vinho. Após um tempo percebi que tinha conteúdo suficiente para publicar os textos em forma de um guia de viagens. Publiquei o livro e acabei investindo meu tempo na divulgação. O livro foi muito bem recebido pelos leitores, vendendo muito bem, o que me estimulou a começar a tratar como um negócio. Já reimprimi o livro três vezes e continua a vender bem. Na foto abaixo, Milton econversa com com Emiliano Frilli gerente do Castelo Vignamaggio, em Greve-in-Chianti; este castelo era da família Gherardini – Lisa Gherardini filha, foi a modelo do Da Vinci para o quadro Mona Lisa (Jovem senhora Lisa). Hoje é uma pousada com enoturismo.R. Ruschel – A maioria dos guias de enoturismo se concentra na adega e nos vinhos. Você inclui o vinho no contexto da gastronomia e da cultura da comunidade. A cultura do vinho é mais ou menos importante que o próprio vinho?

Milton Mira – O vinho dentro da garrafa é consequência de um trabalho árduo, técnicas, com muita dedicação e amor de agrônomos e enólogos. A maioria das pessoas que visitam vinícolas concentram seus interesses no prazer da degustação, que é ótimo. Eu sinto mais prazer em saber e conhecer terroirs, castas, processos, as decisões dos enólogos na produção do vinho. É sabido que, em terroirs determinantes, a combinação perfeita do terroir com a uva, é decisiva para um vinho de ótima qualidade.Também, a maioria das regiões vinícolas estão em lugares onde há outras atrações históricas e culturais, então porque não aproveita-las ? É isto que tenho feito quando visito regiões vinícolas.

R. Ruschel – Quais as três adegas brasileiras que você apresentaria a um amigo estrangeiro?

Milton Mira – No Vale dos Vinhedos, na região de Bento Gonçalves, Garibaldi e Pinto Bandeira eu recomendaria várias, Don Laurindo, Pizzato, Don Giovanni, Cave Geisse, e se estiver lá, porque não visitar a Salton, Miolo, Alma Única, Casa Postal, Lidio Carraro, Chandon?

R. Ruschel – Quais os destinos de enoturismo na America do Sul que você recomendaria?

Milton Mira – Além do Vale dos Vinhedos no RGS, na America do Sul, os destinos mais desejados pelos brasileiros estão em Mendoza na Argentina e ao redor de Santiago, no Chile. Em Mendoza, além das vinícolas à sua volta, recomendo visitar o Vale de Uco. No Chile, o Vale de Maipo, Casablanca, Vale do rio Aconcágua e principalmente a cidade de Santa Cruz, no Vale de Colchágua. Na foto abaixo Mira está com Daniela Chesini, gerente do enoturismo da Chandon em Garibaldi.R,. Ruschel – Comparando Chile e Argentina, o que cada um destes destinos oferece melhor do que o outro para um visitante brasileiro?

Milton Mira – Se formos comparar os vinhos, tanto faz ir para Argentina como para o Chile. Em Mendoza a atração é o vinho. Acredito que três dias são suficientes para visitar algumas vinícolas e curtir a cidade. Já no Chile, há mais atrações e é preciso mais tempo. Além das vinícolas no Maipo, Casablanca e Aconcágua, a cidade de Santiago merece uma atenção especial.Se puder, vá ao Vale de Colchagua. Ali está muito do futuro da produção de vinhos do Chile. Lá estão Lapostolle, Montes, Viu Manet, Santa Cruz, Los Vascos. Se tivesse que escolher uma viagem, sem dúvida seria para Santiago.

R. Ruschel – Quais os três destinos de enoturismo na Europa que você recomendaria?

Milton Mira – Recomendar só três é pouco. Todas regiões vinícolas na Europa são atrações especiais. Cada uma é diferente da outra, senão vejamos. Portugal por exemplo, eu recomendaria sem dúvida. Lá há três regiões importantes, Alentejo, Dão e Douro. Estou deixando de lado a Bairrada. Na Espanha as regiões de Rioja e Ribeira del Duero, que ainda não são tão visitadas por brasileiros. Se alguem preferir ir para a Espanha, é uma ótima opção. Vamos falar agora da França, meu Deus, eu gosto de todas, Provence, Borgonha, Champagne, Bordeaux, Alsacia-Lorena. Cada qual é uma atração à parte. Agora, Itália, Piemonte, região do Barolo e a belíssima Toscana com suas cidades históricas medievais. Em todos estes lugares há ótimas vinícolas, ótimos vinhos, muita história, cidades medievais, passeios, e a gastronomia específica de cada lugar. Vai depender do gosto e bolso de cada um.

R. Ruschel – Você é um empreendedor por natureza. E um apaixonado por vinhos. Quais as três melhores oportunidades para um empreendedor brasileiro produzir seu próprio vinho, com mais e menos recursos financeiros?

Milton Mira – Eu diria que não há muitas opções. A melhor maneira, e que várias pessoas estão fazendo, é procurar uma boa vinícola no sul, escolher um vinho que voce aprecia, comprar uma quantidade de garrafas e colocar um rótulo seu. Conheço várias pessoas que possuem seu próprio vinho desta maneira. Na foto abaixo Mira está com a Engenheira-enóloga Delphine Brulez do Chateau Louise Brison, em Essoyes, região de Champagne.R. Ruschel – Se você fosse produzir vinhos, onde se instalaria e quais as uvas? Que experiências gostaria de fazer em vinhos com seu nome no rótulo? Aliás, você pensa nisso?

Milton Mira – Por razões familiares e de amizades, eu escolheria Portugal. Aliás andei vendo por lá umas propriedades com estas intenções. Em Portugal há uma variedade grande de uvas, e eu teria de analisar primeiro o terroir do lugar para depois definir a uva.

R. Ruschel – Podemos esperar outro livro semelhante no futuro? Quais os destinos? Para quando?

Milton Mira – Sim, já estou trabalhando o novo livro, que pretendo lançar em Outubro de 2019. Vai ser semelhante ao atual, incluindo novas regiões vinícolas como, Tain L’Ermitage e Tournon na Provence; Troyes, Bar-sur-Seine, Le Riceys em Champagne. Além de incluir um capítulo dedicado às castas de uvas.

R. Ruschel – Quais os vinhos que você aprecia? Quais suas sugestões de vinhos para o verão brasileiro que se aproxima? Quais suas sugestões de vinhos não-europeus para meus leitores europeus neste inverno?

Milton Mira – Normalmente não recomendo vinhos, eu preciso dizer os vinhos que eu gosto e bebo. O vinho é muito pessoal e depende muito do bolso de cada um. No verão aqui no Brasil, eu bebo principalmente tintos mais leves, com as uvas Pinot Noir, Merlot e até um Carménère. Bebo tambem espumantes nacionais, Salton, Don Laurindo, Don Giovanni , Pizzato, Chadon e principalmente Cave Geisse. Na praia, quando posso, com frutos do mar, bebo um Chablis. Na Europa as opções de vinhos são ilimitadas se considerarmos as três regiões de Portugal, as cinco regiões da França, as duas regiões da Espanha e as duas regiões da Itália. Sem considerar todas as outras regiões que não constam ainda no meu livro. Muito difícil recomendar. Além disto, o pessoal da Europa sabe muito mais de vinhos do que nós.

Mira pode estar viajando, mas o livro está a venda em livrarias como Saraiva, Cultura, Amazon, Submarino e Martins Fontes ou no site da editora.

 

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