Evento mostra o que só a Bahia tem no campo: produtos de terroir com identidade territorial que conquistam o mundo.

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Por Georgina Maynart, do jornal Correio, editado por Rogerio Ruschel. Fotos jornal Correio.

Meu prezado leitor ou leitora, você sabe o que é que a Bahia tem? Tem tudo isso que nós já conhecemos, mas tem muito mais – inclusive muitos produtos com poderosa identidade territorial e que por causa disso crescem em prestígio, valor e aceleram o desenvolvimento regional. Entre estes tesouros no fundo do quintal baiano estão o cacau cabruca (do sul da Bahia), a cachaça de Abaíra, café verde em grãos do Oeste, cafés da Chapada Diamantina, o Cravo da índia do baixo sul, as Ostras do Recôncavo, zona rural de Cachoeira, às margens da Baía do Iguape, as mangas e uvas do Submédio Vale do São Francisco, os afamados charutos do Recôncavo, algodão de sequeiro do Oeste da Bahia e Vinhos da Chapada Diamantina. Aliás In Vino Viajas já apresentou a seus leitores os vinhos do Morro do Chapéu, com alma francesa, veja aqui: http://www.invinoviajas.com/2017/03/conheca-o-misterioso-morro/ )

Como meus leitores já sabem porque repito insistentemente, produtos de terroir valem além do preço que obtém no mercado, porque seu valor deve ser avaliado em termos de geração de empregos e renda, valorização cultural e social das comunidades e ainda quanto valem por divulgar seus territorios de origem atraindo turistas e investidores e por sua importância como produção inovadora e sustentável do agronegócio, com cadeias produtivas de base local.

Para dimensionar o valor destes produtos vai ser realizado dia 24 de outubro, o I Fórum de Inovação e Sustentabilidade para a Competitividade – FISC, uma realização do jornal Correio, Ibama e WWI, com o patrocínio da ABAPA, Fazenda Progresso e Suzano S.A e apoio institucional da FIEB e FAEB/SENAR.

O primeiro livro de marketing do Brasil a focar em produtos com identidade regional

Para você conhecer melhor estes tesouros baianos, In Vino Viajas convidou Georgina Maynart, repórter do jornal Correio, de Salvador, Bahia, para publicar aqui o que os leitores do Correio já sabem. Georgina lembra que além destes produtos, a Bahia tem muitos outros. Em meu livro “O valor global do produto local – A identidade territorial como estratégia de marketing” (Editora Senac, junho/2019), o primeiro do Brasil com este foco (veja a capa acima), publiquei um artigo exclusivo do professor Alcides dos Santos Caldas, da Universidade Federal da Bahia, sobre as Indicações Geográficas do Nordeste e o potencial da Bahia, entre os quais ele lembra os processos de registro da farinha de copioba, as rendas de Saubara, as cerâmicas de Maragogipinho, o sisal de Valente e o guaraná de Tapero.

Com a palavra, Georgina Maynart, do jornal Correio.

Cacau do sul da Bahia

Nossos terroirs, o que só a Bahia tem

Clima, solo, técnicas e tecnologias ajudam estado a produzir frutos e grãos únicos em todo o mundo.

Eles são únicos. Em nenhum lugar do planeta se produz algo com sabor parecido, textura similar, igual volume, tamanho ou cor. Produzidos em determinadas regiões, em condições climáticas exclusivas, eles vêm sendo relacionados até como “terroir” mesmo quando não se trata de vinho. Com características peculiares eles ajudam a dar uma cara especial à agropecuária baiana no cenário mundial. Podem até não ser produzidos em grandes quantidades, como as commodities soja e algodão do oeste da Bahia. Mas, sem dúvida, marcam presença definitiva na lista de muitos compradores internacionais que desejam um bocadinho deste diverso e saboroso pedação do Brasil.

São produtos do campo que vão ainda mais longe. Além de atiçar o paladar, geram empregos, influenciam na balança comercial, servem de insumos para agroindústrias ou se tornaram pilares econômicos de muitos municípios baianos. Com base em informações de órgão oficiais como IBGE, Ministério da Agricultura, Embrapa, prefeituras municipais, associações e sindicatos de produtos rurais, o CORREIO montou um mapa com dez destes ‘terroirs’ baianos.

Algodão de sequeiro do Oeste da Bahia

São produtos com identidade própria, distintos de outros existentes no mercado, e gerados a partir de características vinculadas ao local de origem, como clima, temperatura, altitude, técnica de preparo, entre outras. Cada detalhe faz a diferença. As amêndoas de cacau produzidas em 64 municípios do sul da Bahia estão nesta seleta lista. Em 2018 os cacauicultores desta região conquistaram o registro de Indicação Geográfica, conferido pela Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).

Também é única a cachaça produzida na microrregião de Abaíra, na Chapada Diamantina. A bebida, fabricada com aguardente de cana-de-açúcar em quatro municípios da região conquistou o registro do INPI em 2014.

“A associação conseguiu provar, entre outros pontos, que esta cachaça possui base e relevância histórica, manejo diferenciado, e até a levedura que compõe a bebida só se desenvolve em ambiente natural nesta região específica da Bahia”, afirma Felipe Toé, assessor jurídico da Associação de Produtores de Aguardente de Qualidade da Microrregião de Abaíra (Apama).

Cachaça de Abaíra

Se a Ásia é produtora de mangas, certamente as de lá não são iguais às frutas das mangueiras que brotam no Vale do São Francisco, no norte da Bahia. O clima da região semiárida, aliado às novas técnicas de produção, à ciência e ao empreendedorismo de centenas de agricultores fizeram surgir mangas diferenciadas. Hoje elas ajudam a tornar a Bahia uma das maiores produtoras de frutas do mundo. Em 2009, as mangas e as uvas de mesa do norte do estado foram os primeiros produtos da Bahia a conquistar o selo de origem. Dividimos a reputação com as frutas cultivadas no mesmo polo mas em pomares localizados em território pernambucano.

Também integram esta primeira lista vinte produtores rurais de 11 municípios do oeste baiano que cultivam o café verde em grãos, da espécie Coffea arábica. Este ano eles entraram para o grupo com indicação de procedência ao provar que os grãos são diferenciados.

“É um café de corpo acentuado, acidez positiva, leve doçura, sabor agradavelmente frutado, gosto remanescente prolongado e aroma floral com boa densidade. O clima do cerrado, os ventos, o modo como os cafezais são manejados e a forma como os grãos são descascados e desmucilados fazem a diferença. Além disso, todos os produtores adotaram procedimentos de respeito ao meio ambiente, de conformidade com a leis trabalhistas e de preservação das reservas ambientais”, afirma José do Espírito Santo, Presidente da Associação dos Cafeicultores do Oeste da Bahia (Abacafé).

Café do Oeste da Bahia

Outros roteiros

Outros produtos gerados na Bahia estão a caminho de conquistar novos selos e projeções. Com projetos de reconhecimento oficial já em andamento, ou em fase inicial de discussão, eles são considerados importantes pela relevância social, cultural ou econômica.

Entre elas estão as fibras de sisal da microrregião semiárida de Valente, os cafés premiados internacionalmente de Piatã, os charutos nacionais produzidos apenas no Recôncavo baiano, e as ostras do Recôncavo, na zona rural de Cachoeira, as margens da Baía do Iguape. As especiarias do baixo sul também integram o nosso mapa. A Bahia é o único estado do país que produz e exporta cravo da índia. O estado também tem a proeza de produzir ainda a melhor fibra de algodão de sequeiro do mundo. Fortes, resistentes e de alta qualidade elas brotam em pleno cerrado baiano.

E vem mais por aí. Outros produtos típicos podem ganhar no futuro novos selos de distinção. Entre eles estão as frutas vermelhas de clima temperado cultivadas em plena Chapada Diamantina, a farinha do Vale da Copioba no recôncavo baiano, o azeite da Costa do Dendê, os derivados de licuri do semiárido, os cafés do Planalto da Conquista, os vinhos de Morro do Chapéu.

À lista promissora pode ser adicionada ainda a carne de fumeiro de Maragogipe, as frutas da microrregião de Gandu, as laranjas do agreste em Rio Real, as surpreendentes azeitonas de Rio de Contas e os derivados de coco do litoral norte. Todos com potencial de inserção futura no mapa de indicação geográfica e de procedência.

Uvas da Chapada Diamantina

Evento discute campo sustentável

As peculiaridades dos ecossistemas baianos – responsáveis pelos nossos terroirs – são nossas riquezas. No Sul da Bahia, por exemplo, o clima e o solo característicos são responsáveis pela produção do chamado “chocolate da Mata Atlântica”. Do mesmo jeito, o  algodão baiano, plantado na região Oeste, foi reconhecido como a pluma de sequeiro de melhor qualidade no mundo. Estes e outros exemplos mostram que o aproveitamento responsável do potencial agrícola rendem à nossa economia.

As melhores estratégias para aproveitar o potencial ambiental do estado sem ferir o meio ambiente serão discutidas no próximo dia 24, no 1º FISC – Fórum de Inovação e Sustentabilidade para a Competitividade, no Senai Cimatec. O superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Ibama) na Bahia,  Rodrigo Alves, destaca a importância de se apresentar as boas práticas na relação entre o setor produtivo e o meio ambiente. “A apresentação daquilo que dá certo é uma vertente do que queremos trabalhar na busca de um meio ambiente equilibrado. E tem muita coisa sendo feita corretamente”.

 Segundo o superintendente, o Ibama pretende provocar uma discussão sobre o desenvolvimento sustentável. Além do evento em Salvador, ele diz que vai realizar outros  em Vitória Conquista e Luís Eduardo Magalhães, em 8 e 22 de novembro. 

O presidente da Federação da Agricultura do Estado da Bahia (Faeb), Humberto Miranda, ressalta que a sustentabilidade é um interesse de toda a sociedade, mas de especial interesse para o agronegócio. “A sustentabilidade, em toda a sua essência, econômica social e ambiental, é fundamental para a nossa sobrevivência. A gente não pode ser simplista em achar que é só proteger uma floresta ou uma nascente. É uma questão que envolve a sobrevivência humana”, defende. “ Obrigado Georgina.

Apenas reforçando, a agricultura tem que trazer desenvolvimento e ele precisa ser sustentável. Essa é uma das condições indispensáveis para qualquer tipo de atividade econômica no século XXI na opinião do diretor da WWI, Eduardo Athayde. Neste sentido, Athayde considera o I Forum de Inovação e Sustentabilidade para a Competitividade como um evento fundamental “para debater inovações disruptivas que estão acontecendo no mundo hoje e que estão influenciando diretamente a sociedade e a economia brasileira”. Ele estará participando do evento  falando sobre a “eco-nomia digital” para o Brasil, com um PIB de US$ 2 trilhões,  e sede da maior concentração de ativos ambientais do planeta. Brindo a isso.

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