Conheça o Syrah Bambini 2018, uma surpresa do Cerrrado Mineiro que harmoniza uvas europeias com terroir de cafés de exportação.

Tempo de leitura: 4 minutos

Por Rogerio Ruschel

Prezado leitor ou leitora, o Brasil dos vinhos é mesmo surpreendente. Semana passada fui surpreendido ao provar um Syrah produzido pela Bambini em um terroir diferente, o do Cerrado Mineiro que fica a 1.672 Km de Bento Gonçalves – RS (a distância de Roma a Montepulciano) e 1.745 Km de Petrolina – PE (a distância de Lisboa a Paris), os dois grandes pólos vitivinícolas do Brasil. Vou contar esta história.

Mas antes, para os leitores de “In Vino Viajas” não brasileiros, informo que o Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil, ocupando cerca de 2 milhões de K2 em 10 estados e do Distrito Federal, especialmente no Centro-Oeste. Tem clima tropical com estações seca e chuvosa bem definidas e uma temperatura média anual entre 21ºC e 27ºC. Como é plano ou suavemente ondulado, o solo é adequado para o plantio de grãos, para agricultura mecanizada e irrigação. Por isso é que o Cerrado é o território do agrobusiness brasileiro de exportação, onde crescem cerca de 60% dos grãos de soja e milho e alguns dos melhores cafés do país.

Sempre houve pessoas que acreditaram que o Cerrado poderia ser um bom terroir também para uvas viníferas por causa das características do solo arenoso e com boa drenagem, pelo clima e também pela amplitude térmica entre dia e noite; no bioma já foram ou são produzidos vinhos com uvas americanas ou híbridas e uvas de mesa. Em Goiás, por exemplo foram produzidos vinhos na década dos anos 1990 e 2000 e também em Minas Gerais, em 2006, quando a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) produziu 10.000 garrafas de um tinto Syrah em João Pinheiro, no Vale do Paracatu.

Pois o Syrah que degustei veio da Fazenda Fortaleza, município de Cruzeiro da Fortaleza, no Triângulo Mineiro, pelas mãos do casal Flávio e Ana Paula Bambini, família com sangue Toscano, na foto acima. Eles são conhecidos produtores de café e em 2015 começaram o “Projeto Fortaleza” para desenvolver um novo terroir de vinhos finos no Brasil. A primeria safra saiu em 2017; provei uma das cerca de 2.000 garrafas da safra 2018, com 14%, safra de inverno, vinificado pela Epamig. De coloração bem intensa, com tons violetas opacos e denso na taça, na boca me lembrou frutas negras com aromas de fundo como tabaco, algo de couro e até mesmo um toque resinoso bem leve.

Medianamente encorpado e com taninos médios, achei um pouco seco para meu gosto. Na verdade procurei uma harmonização também inesperada para um vinho inesperado: abri o Syrah Bambini 2018 sem aeração para acompanhar um bacalhau cozido com legumes e temperos fortes, imaginando que ficaria equilibrado porque é um vinho sem madeira. De qualquer maneira o café foi o Três Corações da série Rituais Cafés Especiais, com Denominação de Origem – D.O. Café do Cerrado Mineiro.

O Syrah Bambini é resultado de fé e dedicação. Flávio Bambini conta:  “O Dr. Frederico Novelli, da Vitacea Brasil, nos assessorou na implantação de um vinhedo baseado nas premissas técnicas conhecidas para a região. Além das características do solo e cima vimos a possibiidade de usar a tecnologia de manejo da dupla poda, que permite que a maturação da uva ocorra no outono/inverno e não no verão. Isso deixa a uva mais madura para a vinificação.” Aproveito para lembrar que esta técnica, criada pelo engenheiro agrônomo Murilo Albuquerque Regina, do Núcleo Tecnológico Uva e Vinho – Epamig Caldas, que “engana” a videira também viabilizou as safras contínuas no Vale do São Francisco, no sertão nordestino; na serra gaúcha a vindima é no verão.

O trabalho da Fazenda Fortaleza é parte de mais uma iniciativa para implantar a vitivinicultura definitivamente no Cerrado brasileiro: o projeto Vinhos do Cerrado, uma mobilização de produtores de café bem sucedidos do Cerrado Mineiro, com 20 participantes e cerca de 10 hectares. Anote: em alguns anos o grupo já poderá estar produzindo vinhos também com a uva Cabernet Sauvignon e fazendo testes com a Sauvignon Blanc. E como os produtores tem boa assistência técnica (Epamig, Embrapa, universidades), experiência em trabalhar coletivamente com a bem sucedida Denominação de Origem Café do Cerrado Mineiro e à disposição a estrutura de governança da Região do Cerrado Mineiro, o projeto Vinhos do Cerrado tem tudo para dar certo.

Os produtores estão se preparando também na área de turismo para quando isso acontecer: já planejam criar uma Rota do Café e do Vinho do Cerrado Mineiro aproveitando as sinergias com o famoso café da região. E eu espero que também incluam outros produtos de sabor regional que são legítimos Tesouros do Fundo do Quintal como o queijo do Cerrado, as cervejas com laranja, rapadura, café e goiabada cascão, o licor de pequi e produtos artesanais.

Brindo a isso.

9 Comentários


  1. Lindíssima reportagem, abordando vários potenciais da região!!
    E muito feliz pelas suas palavras…
    Muito obrigada!!

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    1. Parabéns a vocês pelas sementes de videiras, de vitivinicultura e de desenvolvimento regional.
      Todas vão brotar e crescer.
      Abs
      Rogerio

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      1. Olá Fabricio. Obrigado pela leitura. Nãoconheço os Bambini pessoalmente, mas o vinho é muitobom. Abs, Rogerio

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  2. Parabéns pela reportagem, o Bambini e a Paulinha são realmente diferenciados, merecem todo o crédito! Saúde ao casal!

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    1. Obrigado, Fabiano. Não conheço os Bambini pessoalmente, mas parece que são muito queridos na região. O vinho é assim: aproxima pessoas de bom gosto. E por falar em bom gosto, nos meus 25 anos Rotary também fui Oficial de Intercâmbio. Responsabilidade, mas alegrias, não? Abraços, Rogerio

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  3. Parabéns, Ruschel. Morei em Minas, Brumadinho. Vizinho meu garantia Minas tinha potencial vitivinícola! Bom saber!

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