Notas de quarentena – Aurora 2015, uma raridade na mesa: um Cabernet Franc muito distinto, com alma francesa e passaporte libanês

Tempo de leitura: 3 minutos

Por Rogerio Ruschel

Meu prezado amigo ou amiga, semana passada ganhei um simpático presente do Marcelo Saraiva, um importador de vinhos que vem fazendo um trabalho valioso para os que gostam de exercer o livre arbítrio da escolha no mundo do vinho. Ele visita, prova e escolhe rótulos de adegas pequenas e dedicadas de países com tradição vinícola, mas fora do convencional. Faz isso há 15 anos, mas abriu a importadora no ano passado. Deu a ela o nome Distintos Wines (for sure!!!) e os vinhos são escolhidos na Áustria, Bulgária, Turquia, Grécia, Eslovênia e Romenia, entre outras fontes.

Marcelo – que se rendeu ao vinho depois de formado em Física, pós-graduado em Relações Internacionais e Mestrado em Economia na Itália – pediu minha opinião sobre dois tintos: um Cabernet Franc 2015 da Aurora, uma empresa familiar do Líbano, e um Plavac 2015 da Vina Caric, da Croácia. Pois provei o libanês no fim-de-semana – e estou com saudades até agora…

O Cabernet Franc 2015 da Aurora é uma dupla raridade: pela origem (é um vinho da Vila Aoura, de altitude média nas montanhas Batroun, do Líbano) e por ser 100% Cabernet Franc, uma uva usada geralmente para agregar estrutura em cortes de Cabernet Sauvignon e Merlot em Bordeux (de onde é originária) e em outros países, e muito importante na região do vale do Loire, onde foi introduzida no século XVII se transformando na principal uva tinta.

O Franc 100% que provei é produzido em escala reduzida (1.500 garrafas/ano), em terras de solo argiloso, com colheita difícil, feita à mão, na segunda semana de setembro nos 2,5 hectares rodeados por oliveiras e carvalhos da familia Gearas (foto acima). Foi envelhecido por 12 meses em barris de carvalho, dos quais 30% em barris novos, e tem recomendação para guarda de 5 anos.

Nestes tempos de quarentena fui com muuuuuita calma. Decantei por 60 minutos beliscando queijinhos e depois degustei-o com carne vermelha feita na panela com alecrim, sal, alho, brócolis, alguma pimenta bem light, com complemento de cenoura e mandioquinha feitas no vapor. Trata-se de um vinho cor vermelho vivo, estruturado, suave e macio, encorpado na medida, com evidentes frutas vermelhas e uma memória de caramelo.

Na ficha do importador consta final com menta, mas não senti taaaanta menta assim. Mas a permanência, o retrogosto, a memória olfativa, esse sim, foi um espetáculo: chamo isso de um vinho feliz, que gosta do que faz, e por isso permanece quase um minuto alegrando a boca… Para terminar, a sobremesa foi pêra – uma pêra portuguesa doce, sumarenta, deliciosa.

Os vinhos do Líbano são pouco conhecidos até porque a produção é pequena (os muçulmanos, cerca de 60% da população, não bebem álcool) e nos últimos 50 anos o território esteve conflagrado políticamente. Mas esta região produz vinhos que são dispersados pelo mundo há séculos. A própria cidade de Batroun, que fica no litoral a cerca de 50 Kms da capital Libano, resistiu por séculos a invasões de gregos, romanos, muçulmanos, cruzados, otomanos e franceses – e vem recepcionando turistas com tantas atrações que foi incluído como um dos 10 lugares para se visitar em 2020 pela rede de TV CNN.

Para quem não lembra, o Líbano é um pequeno país na Ásia Ocidental espremido entre o Mar Mediterrâneo, a Siria e Israel. Com um território de 10.452 km², foi o lar dos fenícios, povo semita conhecido por sua cultura maritima e imagem de excepcionais comerciantes, que entre os anos 2700 e 450 a.C levaram seus produtos para todos os cantos do mundo. Vinho certamente era um deles, para beber, vender, trocar. Pois agora você pode provar uma destas heranças libanesas selecionadas por um importador que preza o estilo de vida – e adora falar de vinhos e viagens – sem ter que atravessar metade do planeta e subir as montanhas salinizadas de Batroun. Bebo a isso.

Veja mais aqui: https://www.distintoswine.com.br/ – (11) 99550-5426

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