Um brinde à Copa do Mundo 2014 com o Faces, o vinho oficial da FIFA, um vinho brasileiro que revela o Brasil.

Tempo de leitura: 6 minutos

 

Por Sonia Denicol (*) 
Semana passada estive na Expovinis, uma feira internacional de vinhos que estava sendo realizada em São Paulo, e vivi um momento bem especial. Há 10 anos atrás eu conheci um pequeno projeto da Vinícola Lidio Carraro, de Bento Gonçalves, no sul do Brasil, que chamava atenção do mercado por sua ousadia de produzir vinhos com uma proposta purista, sem uso de barricas de madeira, sem intervenções ou correções e sem filtragens. Tudo em prol de revelar um vinho com identidade brasileira. (Abaixo, parte dos vinhedos da Lidio Carraro).

 

Uma identidade que para esta família (veja na foto abaixo) sempre esteve focada no trabalho no campo, no solo, estudado minuciosamente por sua carismática e competente enóloga, a Monica Rossetti, com quem tive o privilégio de andar pelos vinhedos, pelas parcelas demarcadas por ela, de acordo com tipo de solo e inclinação, para conhecer a fundo o que cada uma delas era capaz de revelar em cada um dos vinhos. Que trabalho lindo, naquele momento confesso que chorei! E foram estes vinhos que me fizeram enveredar na busca pelos caminhos das pequenas produções mais puras e autênticas, e que me fizeram descobrir um outro Brasil produtor de vinhos, diferente daquele que a gente conhecia até então.

 

Que ousadia foi esse projeto, bem vinda ousadia! Lembro que na época choveram críticas dos defensores dos vinhos super-encorpados, amadeirados e alcoólicos, de preferência de origem não nacional. Natural, afinal tudo que é diferente causa impacto e rejeição. Mas a Lídio Carraro não se deixou abater, seguiu em frente, sem se render aos padrões. E valeu a pena! O projeto cresceu e se consolidou, a ponto da vinícola ser escolhida pela FIFA para produzir o vinho representante da Copa do Mundo de 2014. (Abaixo, a fonte do vinho da Copa do Mundo: os vinhedos da Lidio Carraro em Bento Gonçalves, sul do Brasil)

 

Pois semana passada reencontrei a querida Monica Rossetti (veja na foto abaixo) pelos corredores da Expovinis, algo raro nos últimos anos, já que atualmente ela se divide entre a produção dos vinhos da Lídio aqui no Brasil e seus estudos na Itália. Ela me convidou para assistir a palestra que estava indo ministrar naquele momento para contar sobre o projeto Faces, o vinho da Copa. Foi muito interessante conhecer como foi pensado todo esse projeto – pena não ver nenhum formador de opinião ou crítico de vinhos na sala…

 

Quando a Lídio foi convidada para produzir o vinho da Copa logo a ideia foi a de buscar um vinho que revelasse o Brasil para o mundo, um país marcado pela diversidade. O desafio era então produzir um vinho especial, em volume suficiente, com qualidade, que revelasse a identidade do vinho brasileiro para o mundo e, muito importante, que pudesse ser bebido e entendido facilmente por todos os consumidores, iniciantes e iniciados, brasileiros e estrangeiros. Fazendo uma analogia com o evento a que este vinho se destinava, a proposta foi então de buscar uma seleção de uvas que pudesse compor um time equilibrado e expressivo para representar o vinho do Brasil. O Rio Grande do Sul foi o terroir eleito para a seleção das uvas, já que o estado é responsável por 90% da produção nacional, e onde estão plantadas todas as variedades mais representativas.

 

Foram elaborados 3 vinhos, um branco, um rosé e um tinto (veja o tinto, acima), todos com a proposta de expressar a diversidade, a descontração e a alegria dos brasileiros. (Veja na foto abaixo a embalagem com os produtos finais sendo apresentados para a presidenta do Brasil,  Dilma Rousseff). O branco é um assemblage das uvas mais representativas: Moscato Bianco, Chardonnay e Riesling Itálico, cada uma aportando ao vinho suas características mais peculiares, com os aromas deliciosos da Moscato, a elegância da Chardonnay e o frescor da Riesling. Um vinho para contar um pouco da história e trazer a alegria. O rosé foi pensado para homenagear a descontração e a sensualidade dos brasileiros, com um vinho versátil e gastronômico, capaz de harmonizar com a vasta culinária brasileira. Para esta seleção foram escaladas a Pinot Noir, a Merlot e a Touriga Nacional.

 

Depois de uma longa reflexão, o tinto veio de uma inspiração que a Monica teve enquanto assistia a uma partida de futebol: fazer uma seleção de 11 uvas. E aí veio o desafio: que time escalar? E qual seria a tática?  A estratégia foi selecionar uvas para, nas palavras da Monica “criar um vinho com intensidade de aromas, muita fruta, boca agradável e bom corpo.” Definida a tática ficou fácil escalar o time, composto Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional, Tempranillo, Pinot Noir, Teroldego, Tannat, Nebbiolo, Merlot, Ancelotta e Alicante Bouschet, com o arremate macio e doce da Malbec para finalização do paladar. (Abaixo, veja os diversos vinhos que “entraram em campo” para fazer o belnd final do Faces tinto).

 

Um vinho que sem dúvida mostra as belezas e os sabores da nossa diversidade, que não se define por um único povo, assim como nosso vinho não se define por uma única uva. É mais do que um simples símbolo produzido para a Copa, é um vinho para mostrar ao mundo um até então desconhecido Brasil produtor de vinhos.

Para finalizar esta apresentação especial, fomos brindados com uma degustação em primeira mão do lançamento da vinícola, o Merlot 2008 comemorativo aos 10 anos da Lídio Carraro. Um vinho de incrível estrutura, mostrando a força e a raça das terras de Encruzilhada do Sul.  Com a presença tímida e emocionante do Sr. Lídio Carraro, que começou este projeto, brindamos a estes 10 anos de trabalho bem sucedido (na foto acima, Monica Rosseti, Lídio Carraro e Patricia Carraro). E eu, em silêncio com minha taça, comemorei com este vinho meus 10 anos de trabalho!  (Abaixo, Sonia Denicol em Verona, Itália.)

 

Outros posts da série Taças na Copa:
Os vinhos do craque espanhol Andrés Iniesta:
Sobre o Faces, o vinho oficial da Copa do Mundo 2014 da FIFA: https://www.invinoviajas.com/2014/05/um-brinde-copa-do-mundo-2014-com-o/

(*) Sonia Denicol é sommelier com grau 3 na Wine & Spirit Education Trust, trabalha com vinhos há 10 anos e registra suas descobertas no blog http://madamedovinho.blogspot.com.br/, com o pseudônimo de Madame do Vinho, uma autora com muita sensibilidade e apaixonada por vinhos brasileiros.

 

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