Pesquisa revela o perfil da indústria vinícola brasileira e mostra onde temos que melhorar

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Por Rogerio Ruschel (*)
O perfil da indústria vinícola gaúcha – e provávelmente muito próximo da brasileira –  acaba de ser revelado pelo “Censo da Indústria Vinícola do Rio Grande do Sul”,  realizado pela Universidade de Caxias do Sul para o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) entre setembro de 2013 e maio de 2014.  O estudo levantou dados de 346 empresas produtoras de vinhos, espumantes e sucos nas seis regões produtoras do Rio Grande do Sul, que representam 79% das 545 empresas registradas no Estado.
Porte das empresas
Destas 545 vinícolas ativas no Rio Grande do Sul, a esmagadora maioria (85%) são micro ou pequenas empresas: 85,8% tem até nove funcionários, 61% delas tem  receita bruta anual inferior a R$ 360 mil e 24,9% faturaram em 2013 de R$ 361 mil e R$ 3,6 milhões.
Sobre as videiras
Do total pesquisado, 89,6% das videiras estão localizadas na Serra Gaúcha e apenas 4,5%, na Campanha. Mas existem diferença interessantes: as videiras da serra são menores e ainda com muitas uvas americanas, de menor qualidade para vinhos finos, enquanto as áreas de plantio na campanha são bem maiores e de melhor qualidade: enquanto na Serra Gaúcha a média dos vinhedos plantados é de 8,7 hectares, na Campanha a média é quase 10 vezes maior, de 77,8 hectares por vinícola.

 

 Tipos de uvas
Outra diferença importante: na Serra Gaúcha 41,1% das uvas são viníferas (as vitis viniferas, chamadas européias, preferidas para produzir vinhos como cabernet, merlot, pinot, barbera, syrah, etc.) e 58,9% (quase 60%) das uvas ainda são as chamadas americanas – espécies como vitis labrusca e vitis riparia, as primeiras introduzidas no Brasil, uvas para fazer vinhos de mesa, comer como fruta e para fazer sucos. Já na campanha gaúcha, 100% das uvas são de variedades viníferas, mais modernas.
Sistema de plantio
Outra diferença interessante – que não foi divugado pela pesquisa, mas é uma realidade e tem a ver com produtividade – se refere aos diferentes sistemas de condução da videira utilizados.  O sistema de Latada (também chamado de pérgola) é o sistema mais utilizado na Serra Gaúcha e muito pouco na Europa, quase que exclusivamente na Itália, de onde veio a tradição dos italianos no Brasil. Na latada o dossel é horizontal, isto é, fica na cabeça das pessoas como um carramanchão e a poda é geralmente mais cansativa, porque tem que ser realizada “para cima”. Já o sistema de Espaldeira, que é o mais utilizado nos principais países vitivinícolas, no Rio Grande do Sul é adotado quase que só na Campanha, na Serra do Sudeste e por algumas vinícolas da Serra Gaúcha. As videiras em espaldeira tem dossel vertical, isto é, crescem como “uma cerca” e a poda é feita lateralmente, “para
Falta profissionalizacão
Outro problema detectado pela pesquisa foi a falta de mão de obra qualificada (na colheita e produção) e carência de profissionalização nos modelos de gestão – o que reforça a tese de que, como em outros setores, as pequenas empresas familiares são gerenciadas ao estilo ”na tradição” familiar. Este perfil de amadorismo atrapalha na produção e na venda. O setor requer cada vez mais especialização para competir e muitas vezes a mesma pessoa cuida do cultivo das uvas, elabora o vinho, comercializa e administra o negócio amadoristicamente, o que não ajuda em um mercado onde a concorrência é global e acirrada. Aliás, isto explica porque os gaúchos vendem preferencialmente “nos fundos de casa”, como você pode a seguir.
Mercados
As vinícolas do Rio Grande do Sul de maneira geral estão fora do mercado gobal: segundo a pesquisa o próprio Rio Grande do Sul é o principal destino dos produtos para 73,6% das empresas; 13,1% delas comercializam para os demais estados da região Sul (Santa Catarina e Paraná) e 24,2%, para a região Sudeste. E apenas 9,2% afirmaram possuir ações de exportação, com predomínio do vinho fino como foco de trabalho, que representa 35% o vinho exportado em 2013.
Enoturismo
25% dos entrevistados disseram possuir algum tipo de ação de enoturismo e 79% o fazem inseridos em algum roteiro turístico. A receita do enoturismo varia, mas apresentou média de 15%; além disso 64% das vinícolas vendem vinho diretamente aos clientes que as visitam. Dentre os 75% que não fazem nada, 42% têm intenção de desenvolvê-lo nos próximos cinco anos. A maioria das vinícolas (55,7%) com ações de enoturismo recebeu, em 2013, até 500 visitantes, famílias. Na maioria dos casos (65%), os visitantes ficam sabendo a respeito da vinícola por recomendações de amigos ou familiares, enqua outros 48% citam a internet. Compare: a região de Mendoza, na Argentina, recebeu mais de 1,4 milhões de enoturistas em 2013, em menos de 100 empresas com atividades turísticas – e o Brasil é o segundo maior mercado emissor destes visitantes. O que mais falta para a percepção da oportunidade?
O diretor executivo do Ibravin, Carlos Paviani ressatou que “O objetivo era, em primeiro lugar, entender melhor as empresas e ter mais informações para se comunicar mais efetivamente com o setor. Há diferenças de resultados partindo do ponto de vista do tamanho do negócio ou da produção, pois tem muitos grupos com realidades distintas.”
Cumprimento o Ibravin pela pesquisa e espero que os associados e dirigentes tomem atitudes concretas a a partir destes dados.


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