Mais delícias da Mantiqueira Paulista: os azeites da Oliq, os vinhos da Villa Santa Maria e a beleza da paisagem infindável

Tempo de leitura: 7 minutos

Por Rogerio Ruschel

Meu prezado leitor ou leitora, entre as visitas que fiz no final de 2018 na Mantiqueira Paulista, 180 Kms de São Paulo, estão produtores de vinho e de azeites. Em outra reportagem apresentei a Entre Vilas da Frutopia (veja aqui: http://www.invinoviajas.com/2019/01/vinhateiros-da-mantiqueira-entre-vilas/). Pois hoje vamos conhecer a Vinícola Villa Santa Maria e os azeites da Oliq – na foto acima a vista da Mantiqueira com os olivais da Oliq.

Só para lembrar, a Serra da Mantiqueira tem mais de 500 Km de extensão, ocupa 129 municipios de São Paulo, Rio de Janeiro e especialmente Minas Gerais, alcançando altitudes de até 2.798 metros. A parte paulista (foto abaixo) ocupa 30% inclui a Pedra do Baú e as cidades de Campos de Jordão, Monteiro Lobato, Sao Bento do Sapucai, Pindamonhangaba, São Francisco Xavier e Santo Antonio do Pinhal na denominada Região Turistica Mantiqueira Paulista.

A Mantiqueira Paulista tem atrações para todos os tipos de visitantes, brasileiros e estrangeiros, porque oferece clima, fauna e flora diferentes, paisagens tranquilizadoras, arquitetura histórica, artesanato, museus, cultura e história, muita paz de espírito – e gastronomia. Entre as atrações a cuinária local oferece delicias de comer & beber na forma da gastronomia caipira, das geléias, conservas, frutas e mel; trutas, carnes e fondues; cachaças, cervejas artesanais e chás; temperos, doces e salgados… E queijos, vinhos e azeites. Hoje vou apresentar uma das vinicolas e um olivicultor.

Villa Santa Maria

Na região da Mantiqueira jé existem muitos produtores de vinhos. Um dos que visitei foi a Villa Santa Maria, de São Bento do Sapucai (acima), que produz assemblages e alguns varietais praticamente aos pés da Pedra do Baú. Os proprietários são Célia e Marco Carbonari. Não os conheci, mas soube pela gerente Aparecida Jucimara que eles começaram o projeto em 2004 vinificando na EPAMIG com a ajuda do professor Murilo Albuquerque Regina, e que em 2009 chegaram ao seu primeiro vinho, batizado de Brandina, nome da avó de Marco Carbonari.

Na propriedade de 90 hectares estão plantados cerca de 70.000 pés de Merlot, Syrah, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Sauvignon, Chardonnay e Viognier, dos quais 30.000 já produzindo cerca de 10.000 garrafas por ano, na quarta safra, e com colheita invertida, no inverno. Com as novas vinhas, até 2020 será viabilizada mais uma etapa do projeto: fazer a vinificação no local. O começo está bom: o primeiro varietal, um Syrah que degustei, ganhou medalha de prata em uma competição em Bruxelas.

Os investimentos também estão objetivando o enoturismo, e desde julho de 2018 os visitantes são recebidos num complexo com vista para a Pedra do Baú que inclui sala de degustação, loja, um deck com mesinhas no jardim e um restaurante gastronômico com 120 lugares. Aliás, o restaurante, chamado Bruscheteria da Villa, é estratégico para o turismo dar certo porque o acesso para a Villa Santa Maria é em terra batida, muito acidentado e cansativo; tenho certeza de que o visitante vai querer descansar um pouco antes de voltar…

Mas as instalações e os vinhos são excelentes. O bonito deck me lembrou a adega da Martin Codax de Cambados, Espanha, acho que por causa do espaço das mesas corporativas com tendas e ajardinados cercados por pequenos espelhos d’água. Gostei da degustação, todos de tintos muito honestos e agradáveis. Eles aceitam cães e crianças e recomenda-se reserve – http://villasantamaria.com.br/pt/

Azeites Oliq

Na região você pode conhecer também produtores de azeites; visitei um deles, a Oliq, que se apresenta assim na internet: “os azeites OLIQ são produzidos na própria fazenda com azeitonas frescas, colhidas manualmente. Os pomares de OLIQ são cultivados na Serra da Mantiqueira, em altitude superior a 1.000 m, na divisa entre Minas Gerais e São Paulo.” Pois estive lá para conferir e conto como foi. Visitei os olivais e o lagar, degustei os azeites, conversei com as oliveiras (sim, eu converso com árvores) e com um dos donos, o seu Antonio Gomes Batista, (abaixo) mineiro de Itabirito, Minas Gerais, que está apaixonado pela atividade. (Não aquero ser fofoqueiro, mas ele me disse que também conversa com as oliveiras…).

Esta árvore surgiu na face da Terra antes dos humanos e na região das atuais Siria e Palestina foram encontrados fósseis e vestigios de oliveiras em lagares com mais de 3.000 anos Antes de Cristo. Atualmente os maiores produtores mundiais estão em climas do Mediterrâneo como Espanha, Grécia, Portugal, Itália, Turquia e Tunísia, mas também em outros continentes como na América Latina, no Chile e Argentina. O Brasil é um grande consumidor e importador e já está produzindo azeites que podem competir com os do Mediterrâneo. Na verdade já tivemos um ciclo produtor de azeites nos anos 1960, mas somente agora, nos anos 2000 é que a produção começou a ser feita de maneira profissional no sul do Brasil e nos contra-fortes da Serra da Mantiqueira.

Escrevi duas reportagens sobre isso, veja aqui:

* Azeite de oliva: veja como esta indústria está brotando no Brasil e as oportunidades que já estão maduras – http://www.invinoviajas.com/2014/05/azeite-de-oliva-veja-como-esta/

* Azeite de oliva “made in Brazil”: produção ainda pequena, mas que já está competindo em qualidade com produtores europeus – http://www.invinoviajas.com/2014/05/azeite-de-oliva-made-in-brazil-producao/

Na Oliq fui recebido pelo simpático Antônio Batista no lagar Santantonio, onde ele e suas duas sócias construiram um receptivo simples, mas bem bacana e um lagar pequeno, mas com equipamentos de refino importados da Itália. Visitei lagares na Itália, e excetuando um produtor da Sicilia que ainda utilizava moenda de pedra movida por bois como parte da atração turística, os demais lagares eram semelhantes a este que vi na Mantiqueira.

Para frutificar, as oliveiras precisam de 400 horas de frio abaixo de 10 graus por ano, e por issso a atividade está se dando bem na Serra da Mantiqueira. E é necessário plantar várias espécies diferentes porque as oliveiras são plantas que, em geral, não se autopolinizam: uma variedade é polinizada por outra. Nas duas fazendas, a Santo Antônio do Bugre, em Bento do Sapucaí, que visiei, e a São José do Coimbra, os sócios vem trabalhando com as espécies arbequina, arbosana, grappolo, maria da fé, koroneiki, coratina e uma variedade ainda não identificada, apelidadade de “bicudinha”. As azeitonas arbequina, de origem catalã são as mais comuns no Brasil – e geralmente são comercializadas como varietais – na última safra da Oliq a arbequina estava com acidez de 0,1% – e a maria da fé é uma espécie brasileira.

Mas a Oliq também vem desenvolvendo azeites com blends com acidez abaixo de 0,12% chamadas Seleção, bem como também azeites aromatizados com produtos de produção própria como com limão siciliano, alecrim, pimenta dedo de moça e café. E um estranho azeite de abacate que degustei mas não gostei. A Oliq investiu em um receptivo para os visitantes que inclui visita ao lagar (foto abaixo), uma área de degustação e uma loja com produtos próprios e de terceiros. A estrada para chegar lá é rústica, pode sofrer bastante com chuvas, e sugiro telefonar antes para ter certeza de que é um bom momento para visitar – veja aqui: https://www.oliq.com.br/visitas/

Na minha lista na Mantiqueira Paulista ainda falta apresentar pelo menos as vinicolas Guaspari, em Espirito Santo do Pinhal e Ferreira, em Campos do Jordão e Piranguçú. E outros produtores de azeite, mas isso é outra história, vai ficar para outra degustação.

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