Altos de Pinto Bandeira: Brasil tem a primeira Denominação de Origem para espumantes do Novo Mundo

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Pinto Bandeira, na Serra Gaúcha: onde nascem os espumantes agora com certificação de origem

Por Rogerio Ruschel

Meus queridos leitores e leitoras, mais um dia para brindar nosso talent e pioneirismo: foi publicado na Revista da Propriedade Industrial do INPI do dia 29 de novembro de 2022 a certificação da Denominação de Origem (DO) Altos de Pinto Bandeira para Vinhos Espumantes, a primeira Denominação de Origem exclusiva para espumantes do Novo Mundo.

A publicação foi festejado pelas vinícolas Aurora, Don Giovanni, Geisse e Valmarino, que passam a exibir nos rótulos de seus espumantes únicos a distinção que eleva e consolida a posição da região e do Brasil no universo da bebida. Os primeiros espumantes com a DO Altos de Pinto Bandeira devem chegar ao mercado a partir do ano que vem.

E para não esquecer, isso menos de dois meses depois de termos registrado outro feito histórico:  a certificação da primeira Indicação de Procedência de vinhos tropicais do mundo, para o Vale do São Francisco.

A estruturação da DO Altos de Pinto Bandeira foi coordenada e financiada pela Embrapa Uva e Vinho, com a participação da Embrapa Clima Temperado, da Universidade de Caxias do Sul (UCS), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Asprovinho.

Foram 10 anos de maturação. Desde que a Associação dos Produtores de Vinho de Pinto Bandeira (Asprovinho) deu o primeiro passo na busca da obtenção da Denominação de Origem (DO) Altos de Pinto Bandeira, ainda em 2012, o trabalho nunca mais parou. Veja a seguir outras informações fornecidas pela Embrapa sobre o tema.

Esta década serviu para consolidar processos já adotados pelos produtores, conscientes de suas condições privilegiadas de terroir – solo, clima e homem -, ideais para a elaboração de espumantes naturais de excelência. Daqui para a frente, toda garrafa de espumante natural que nasce nesta região delimitada e exibe o Selo da DO estará entregando a garantia da procedência e qualidade das uvas, assim como de cada etapa do caminho, do vinhedo à taça.

Para ter direito ao uso do Selo da DO em seus espumantes naturais, as vinícolas têm que cumprir regras rigorosas de controle, desde o cultivo das uvas até o engarrafamento. O saber fazer agrícola, vitícola e vinícola deve estar em perfeito equilíbrio durante todo o processo. Tudo começa com as variedades autorizadas – Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Itálico – que, além de serem cultivadas na área geográfica delimitada, também precisam ser conduzidas pelo método espaldeira. A interação clima-solo-videira é o que confere as características particulares necessárias para a elaboração do vinho base que vai originar o espumante natural dos Altos de Pinto Bandeira.

O resultado são uvas com maturação moderada e composição equilibrada entre acidez e açúcar, com precursores aromáticos que resultam em qualidades e características de cor, aroma, paladar e estrutura determinadas pelo meio geográfico. Para completar, destaque para a atividade do homem que revela e evidencia, através de sua sensibilidade e conhecimento, a identidade do local.

Mesmo seguindo todo este protocolo, é preciso submeter os produtos a análises laboratoriais e sensoriais, com gestão do Conselho Regulador da DO. Somente depois é que o produto está apto a receber o rótulo com o Selo e seguir para a mesa do consumidor.

Para o presidente da Asprovinho, Daniel Geisse, a notícia foi recebida com muita comemoração. “Formalizar o que já estamos desenvolvendo há muitas safras é brindar a persistência de todos os envolvidos, unidos num único propósito. Agora podemos trabalhar na consolidação do posicionamento da marca no cenário nacional e no mundo do vinho. Isso porque a DO dos Altos de Pinto Bandeira é a única DO exclusiva de espumantes do Novo Mundo”, destaca. Esta conquista somente foi possível graças a expertise e trabalho especializado de parceiros como a Embrapa Uva e Vinho, Universidade de Caxias do Sul (UCS), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Sebrae Nacional, Sicredi Serrana e Poder Público Municipal de Pinto Bandeira.

Para Jorge Tonietto, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho que coordenou o projeto de estruturação da DO Altos de Pinto Bandeira, esta é uma conquista dos produtores da região, sob a gestão da Asprovinho, numa parceria com a ciência, envolvendo um conjunto de cientistas da Embrapa, bem como da parceria da Ufrgs e UCS. “Esta Denominação de Origem possui equivalência estrutural e apropria um alto nível qualitativo, como o existente nas prestigiosas Denominações de Origem de espumantes do Champagne da França ou Franciacorta da Itália”, ressalta. Tonietto, complementa, afirmando que o espumante é o produto ícone da Serra Gaúcha e a Denominação de Origem garante a alta qualidade e originalidade do que há de melhor para este produto.

Segundo ele, representa um nível organizacional ímpar para o Brasil, um avanço, uma inovação, que vai continuar inspirando novas iniciativas, colocando o Brasil no lugar que merece pela qualidade do que faz. “O trabalho da Embrapa e parceiros foi decisivo para esta conquista, seja na definição do Caderno de Especificações Técnicas que contempla o conjunto de requisitos de produção que garantem a qualidade dentro da tradição da região, seja na delimitação da área de produção, na caracterização do meio físico, do sistema produtivo vitícola e enológico, bem como na caracterização analítica e sensorial dos espumantes, bem como de todos os estudos que possibilitaram este reconhecimento com base nas exigências da legislação do Brasil na matéria”, conclui. 

Características da região

A DO dos Altos de Pinto Bandeira abrange 65 km² de área contínua, sendo 76,6% localizada no município de Pinto Bandeira, 19% em Farroupilha e 4,4% em Bento Gonçalves. A altitude média da região é de 632 metros, com terrenos de relevo ondulado até montanhoso. As temperaturas são mais amenas, enquanto a exposição solar é favorecida pela localização na margem esquerda do Vale do Rio das Antas e pela boa circulação horizontal do ar no alto de um dos patamares do Planalto Basáltico da Serra Gaúcha. Este conjunto de características influencia na escolha de técnicas de cultivo e manejo dos vinhedos, interferindo diretamente na qualidade do vinho elaborado.

Principais regras para o uso da DO Altos de Pinto Bandeira

1 – Cultivares autorizadas: Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Itálico, sendo que os vinhedos devem ser cultivados, exclusivamente, na área geográfica delimitada e estarem declarados no Cadastro Vitícola.

2 – Origem das uvas: As uvas devem ser cultivadas 100% na área geográfica delimitada da DO Altos de Pinto Bandeira.

3 – Sistemas de Condução: espaldeira.

4 – Produtividade: limite máximo por hectare de 12t/ha. A colheita mecânica é proibida para as uvas destinadas à DO, que também devem apresentar mais que 14º graus babo.

5 – Elaboração: Os espumantes com DO somente podem ser elaborados pelo Método Tradicional com tempo superior a 12 meses de guarda. Quanto ao açúcar residual estão autorizadas as classes Nature, Extra-Brut, Brut, Sec e Demi-Sec.

6 – Processos Enológicos:

– É permitido o uso de barricas de carvalho, tanto na primeira fermentação quanto no vinho base para espumante, sendo que para ter a DO é necessário ter a segunda fermentação na garrafa.

– Os vinhos base para espumante devem ter no máximo cinco anos, contados a partir da data de término da respectiva safra de uva.

– É permitido o uso de diferentes safras de vinhos base para espumante nos cortes, desde que das variedades autorizadas. Nos cortes, o vinho base de Riesling Itálico terá um percentual máximo de 25% sobre o volume do produto final.

– O vasilhame autorizado é, exclusivamente, o de garrafas de vidro nos volumes 375mL, 750mL, 1500mL e 3000mL.

– Padrões de Identidade e Qualidade Organoléptica do Produto: espumantes da DO devem ser aprovados em avaliação sensorial realizada pela Comissão de Degustação, gerida pelo Conselho Regulador da DO.

– Espumantes Safrados: Os espumantes da DO Altos de Pinto Bandeira podem ser safrados, devendo conter, no mínimo, 85% de vinho base da safra mencionada.

– Rotulagem: O rótulo principal deverá conter a identificação do nome geográfico da DO, seguido da expressão Denominação de Origem. A rotulagem também deverá incluir o Selo de Controle numerado, especificando o número do lote e da respectiva garrafa do lote. 

CONSELHO REGULADOR DO ALTOS DE PINTO BANDEIRA 2022-2024

Presidente: Maciel Ampese

Vice-presidente: Carlos Abarzúa

Demais Membros: Mauro Celso Zanus (Embrapa Uva e Vinho) e Ivanira Falcade (UCS), como representes de Instituição Técnico/ Científica com conhecimento em Cultura e Enologia; Jurandir Nosini (ABE); Flávio Zílio e Vanessa Stefani (representantes das empresas associadas) 

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