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Por Rogerio Ruschel
Entrevista exclusiva com João Allievi
Meu prezado leitor ou leitora, o turismo é uma atividade de lazer, cultura e que tem relevante importância econômica – tanto é que se trata da mais importante atividade do planeta. E pode ser feito de diferentes maneiras, a depender do ambiente e do turista. Aventuras em cavernas é pouco praticada, mas é diferente, fascinante e educativo. Para falar desta atividade no Brasil (e no mundo) entrevistei João Allievi, conhecida liderança setorial no Brasil. Advogado, professor, empresário, coautor do livro “Cavernas Brasileiras” (1980); ex-presidente da SBE – Sociedade Brasileira de Espeleologia (1986/88) e do IEB – Instituto de Ecoturismo do Brasil (2000/02); espeleólogo, fotógrafo, guia de montanha e caverna. Ele é o autor da foto acima, é dificil verm, mas tem um espeleólogo descendo de rapel o pórtico de entrada da Lapa dos Brejões (130 metros de altura) na Bahia. Veja o que ele relata com exclusividade para os leitores do In Vino Viajas.
Rogerio Ruschel – Que tipos de cavernas existem; como se classificam? Qual a importância das cavernas dos pontos de vista ambiental, ecossistêmico, cultural e econômico?
João Allievi – As cavernas, legalmente conhecidas como Cavidades Naturais Subterrâneas tem, entre nós, várias denominações diferentes. No Brasil, temos as grutas, as lapas, os abismos, as furnas. As duas primeiras com o desenvolvimento predominantemente horizontal. As demais, verticais. Elas podem também ser classificadas pelo tipo de rocha encaixante. Nos calcáreos é onde as cavernas mais se desenvolvem (temos cavernas com mais de 500 quilômetros de desenvolvimento). Mas elas também ocorrem em rochas como o arenito, granito, gnaisses, quartzito, mármore, manganês, micaxisto, gelo e até em lava vulcânica. O ambiente subterrâneo das cavernas faz parte do nosso ecossistema e guardam informações de valor cientifico, cultural e popular. Um bom exemplo são as romarias religiosas na Lapa de Bom Jesus, na Bahia.
Rogerio Ruschel – Porque devem ser preservadas? Quais as principais ameaças às cavernas no Brasil? Como são preservadas do ponto de vista legal?
João Allievi – A partir da Constituição de 1988, as cavernas passaram a ter uma proteção legal efetiva. Deixaram de serem vistas somente como matéria prima para a mineração (o calcário é a matéria prima do cimento e da cal), e foram reconhecidas como um ecossistema natural único, digno de proteção. Hoje elas são classificadas como Bens da União (mar territorial, espaço aéreo, terras indígenas etc.) e são assim, constitucionalmente protegidas. Não só pelo valor ambiental que possuem, mas também por representarem um dos últimos limites terrestres ainda não totalmente explorados pelo homem – além das montanhas nevadas e das fossas abissais. Nos dias atuais, as cavernas representam um enorme potencial ambiental e ecoturístico. Não se deve destruir o que ainda nem se conhece.
Rogerio Ruschel – O Brasil possui muitas cavernas? Onde estão as principais? Quais as mais importantes e porque são importantes?
João Allievi – No Brasil, as cavernas estão agrupadas em Províncias Espeleológicas e se espalham por quase todos os Estados, com destaque para o Vale do Ribeira de Iguape (SP); a região de Sete Lagoas e Januária em Minas Gerais; e na região de Iraquara, na Bahia. Além do Mato Grosso do Sul e do Amazonas.
Rogerio Ruschel – Existe uma atividade regular de turismo em cavernas, a espeleologia, no Brasil? Trata-se de um tipo de turismo regulamentado, que consta dos planos de turismo oficiais do Brasil? Quais as recomendações que devem ser feitas para melhorar a atividade?
João Allievi – No Brasil já temos diversas cavernas abertas à visitação – #Caverna do Diabo – Eldorado Paulista/, # Caverna de Santana, no Petar- Iporanga-SP/- # Vale do Peruaçu em Januária/MG #Lago Azul, em Bonito. MS, #Lapa Doce e Torrinhas na Bahia, etc. Mas, por ser esse ambiente muito frágil, recomenda-se que sejam abertas à visitação turística somente depois de um planejamento sustentável. E espeleologia (spelaion – caverna em grego) é um misto de ciência, esporte e lazer. Flerta com as ciências e se materializa as expedições de descobrimento e exploração subterrânea. A atividade física da espeleologia já tem regras que não fogem às regras dos esportes de aventura. Existem manuais e normas firmando protocolos de conduta.
Eu e você, Rogerio, participamos juntos da criação da primeira política nacional do ecoturismo no Brasil (1994.) E de lá pra cá, a proteção das cavernas vem sendo muito mais atacada do que protegida. Temos mais manobras legislativas para facilitar a exploração mineral do calcáreo, do que normas para protege-las. Está na pauta do Congresso um Projeto de Lei que revoga a obrigatoriedade do EIA-RIMA oficial, (analise do impacto ambiental). Isso pode ser uma gravíssima ameaça ao patrimônio ambiental brasileiro. Mas nem tudo está perdido! Penso que agora temos um órgão federal destinado a proteger o patrimônio espeleológico. O CECAV (Centro de Estudos das Cavernas), criado no âmbito do. IBAMA, é quem cuida da proteção legal e organiza o Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas. Graças ao trabalho desse órgão público, podemos hoje acessar virtualmente dados sobre cavernas: Legislação, localização, desenvolvimento, tipo de rocha, turismo, atrativos etc.
Rogerio Ruschel – O que um visitante pode esperar ao visitar uma caverna? Que tipos de turismo podem ser feito – mergulho, caminhada, alpinismo?
João Allievi – A entrada de uma caverna nunca se repete na forma, mas sempre é igual no sentimento que desperta quando a encaramos pela primeira vez: temor, desejo, respeito e ansiedade* (Sobre isso sugiro ler no livro “Cavernas Brasileiras”, de C. Lino & J.Allievi- Ed. Melhoramentos -1980). A espeleologia atrai os estudiosos das ciências naturais (geologia, biologia etc.), mas é particularmente interessante aos que buscam na Natureza, uma forma de lazer e aventura. Nelas se pode caminhar, escalar, nadar, mergulhar, fotografar, ou simplesmente… passear. Dispomos de diversas opções para explorar esse ambiente escondido abaixo de nossos pés. E que valem a pena serem conhecido!
Rogerio Ruschel – Quais os principais polos de espeleologia no mundo e no Brasil? Existem empresas e guias capacitados em espeleologia? Se uma pessoa quiser conhecer uma caverna onde deve procurar informações?
João Allievi – A existência das cavernas está quase sempre associada as regiões cársicas (calcáreas), onde a rocha, com a ação da água, sofre processos químicos e físicos que facilitam a dissolução e a cristalização dos minerais, criando os espeleotemas – estalactites, estalagmites – A ocorrência de cavernas não obedece às divisões políticas (países, estados, municípios) e por isso são encontradas no mundo todo. Já temos no Brasil algumas empresas especializadas nesse tipo de turismo, capazes de levar o interessado a conhecer, com segurança e responsabilidade, diversas cavernas. O PETAR -Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira – em Iporanga SP, tem inúmeras cavernas abertas à visitação e é um ótimo lugar para quem quer se iniciar na pratica espeleológica. O Vale do Peruaçu em MG, (recém transformado em Patrimonio da Humanidade), é outro lugar que não deve deixar de ser visitado
Mas para aqueles que pretendem algo mais do que um passeio, o recomendado é procurar um dos inúmeros grupos de espeleologia filiados a SBE, espalhados pelo Brasil. Os grupos oferecem excursões técnicas e orientam o interessado na pratica correta da espeleo. Um desse grupos é o CEU – Centro Excursionista Universitário, na USP, onde eu me iniciei na espeleologia. Posso garantir que essa vivencia excursionista, mudou minha vida pra melhor.
Rogerio Ruschel – Qual a caverna considerada a mais importante do mundo? E qual a maior? E qual a mais popular em termos de visitantes?
João Allievi – Difícil responder, pois a cada dia estamos conhecendo novas caverna, algumas excepcionais em tudo. Recentemente ficamos sabendo de uma caverna no Vietnã (Hang Son Doog) considerada a gruta com maior volume interno (tetos com 200 metros de altura e volume com cerca de 38 milhões de metros cúbicos). Via de regra, a caverna mais importante não é necessariamente a maior. Uma caverna não se classifica por seu tamanho ou dimensões, mas sim pelo seu valor ambiental ou cênico que apresenta.
Na Europa temos cavernas incríveis; temos os desafiantes Abismos menos1000 dos Alpes e Apeninos! A conhecida Grotta Azzurra, na ilha de Capri – Itália. Nos EEUU temos uma das maiores do planeta – Mammoth Cave – (com mais de 500 quilômetros de desenvolvimento) e majestosa Caverna Lecheguilla, no Novo Mexico. E na China a misteriosa a Reed Flute. Aqui entre nós temos cavernas para todos os gostos. Temos a Gruta de Santana e da Temimina (Petar SP), a Lapa dos Brejões (Morro do Chapéu BA), a Lapa da Boa Vista, (Campo Formoso BA) e o espetacular Vale do Peruaçu em Januária/MG. Algumas das principais cavernas turísticas visitadas no Brasil – Lago Azul – Bonito MS / Lapa Doce, Pratinhas e Torrinhas – Lenções – BA./ Caverna do Diabo – Eldorado Paulista e Santana em Iporanga – SP / Abismo Anhumas em Bonito MS/Lapinha em Lagoa Santa, Rei do Mato em Sete Lagoas e a Maquiné em Cordisburgo, em MG. Tenho certeza que em todos os Estados brasileiros tem alguma caverna em seu território e isso é motivo de orgulho!!
Conheço uma caverna que tem um pouco mais de 500 metros, mas é uma das mais importantes do planeta. Ela é o habitat do Pimelodella kronie, nosso famoso bagre-cego. Um peixinho cavernícola (troglóbio) que além de cego e albino, vive no escuro, as prateleiras dos Supermecado deles sempre estão vazias... e nesse ambiente inóspito tem que nadar no escuro, comer e procriar. Um verdadeiro herói!
Bichos e cavernas – A fauna cavernícola é muito interessante. O romeno Racovitza em1907, foi o primeiro a classificar os animais cavernícolas. Primeiro os Troglóxenos, visitantes ocasionais que se aproveitam do ambiente protegido das bocas das cavernas, para proteção (sol, chuva, frio), alimentação e abrigo. São as lontras, cobras, corujas, aranhas, rãs, sapos e alguns caramujos. Segundo são os Troglófilos, os amigos das cavernas, pois conseguem desenvolver um ciclo de vida dentro e fora do ambiente subterrâneo: são alguns insetos, grilos, pitus, centopeias, raros crustáceos e morcegos. O Terceiro classificado são os Troglóbios, os verdadeiros cavernícolas. Esses animais são perfeitamente adaptados ao escuro e são incapazes de viver no ambiente externo. A caverna é seu refúgio e sua prisão. Exemplos – peixes, crustáceos, diplópodes (centopeias)
Rogerio Ruschel – Como é feito o espeleoturismo em outros países com mais estrutura? O que podemos aprender com eles?
João Allievi – Alguns países tem mesmo maior estrutura receptiva. Mas não tem as cavernas que nós temos!! As cavernas exploradas turisticamente pelo mundo, são numerosas, diversificadas e estão distribuídas pelos cinco continentes. Na Itália temos uma caverna aonde o visitante entra de barco, ouvindo um solo de violino ecoando pelo enorme salão (Grotta Azzurra – Capri). Nos EEUU uma caverna virou hospital subterrâneo. Nas regiões montanhosas temos os Abismos menos 1000 que desafiam tecnicamente os mais experientes.
Mas eu acho que a tendencia atual não é municiar as cavernas turísticas com luzes, passarelas e cercadinhos. A adrenalina está pedindo passagem, e o fator risco está atraindo mais adeptos do que o fator segurança e conforto. O Abismo Anhumas, em Bonito, é um lugar onde os ecoturistas vão lá para fazer um rapel dentro de abismo escuro e depois mergulhar nas galerias quilométricas do lago subterrâneo (80 mts de profundidade). Claro que um tipo de turismo desse, requer capacitação técnica e psicológica. E Bonito tem!!! Acho que o Brasil pode ser um dos expoentes do espeleoturismo. Temos milhares de cavernas espalhadas pelo nosso território – Segundo o CECAV, temos no Brasil mais de 28 (428) mil cavidades naturais subterrâneas. Muitas delas passiveis de serem transformadas em um destino ecoturístico-espeleológico de valor. Temos um clima ameno, o que estimula a visitação; temos cavernas tão excepcionalmente ornamentadas (estalagmites, estalagmites, etc.), que a beleza desses cenários deslumbra todo o visitante. Gente vinda de todo o mundo atesta o valor de nosso subterrâneo.
E agora, a exploração espeleológica brasileira está respirando novos ares. Agora é AR COMPRIMIDO!! Estamos começando a explorar os rios subterrâneos existentes dentro de algumas cavernas já conhecidas. Recentemente, uma equipe de espeleo mergulhadores (ABRAMAC) descobriu mais de 2000 metros de condutos alagados do Rio Jacaré, ligando as duas metades da já conhecida Gruta do Brejões, na Bahia. Na Europa, esse tipo de atividade de alto risco e extremamente tecnológica, atrai muitos admiradores. O espeleo mergulho é a segunda atividade mais perigosa deste mundo. A primeira é a tentativa de sair dele.
O espeleoturismo, por ser uma atividade de risco, é praticado em grupos (nunca sozinho), de forma segura, consciente e respeitosa. E na maioria dos casos, amadoristicamente. O espeleoturismo mais profissional está sendo operado em volta das cidades que possuem um potencial turístico acentuado. (Bonito/ Chapada Diamantina/ Iporanga/Peruaçu). Com relação a segurança individual do praticante, temos parâmetros positivos, pois o número de acidentes ocorridos no Brasil, está bem abaixo do número médio registrado em muitos países. Não temos caverna no gelo (o frio é a causa de um dos principais motivos para acidentes – a hipotermia), podemos andar pelos rios subterrâneos sem problema; não temos grandes abismos, (o que facilita o caminhamento horizontal). E temos um clima tropical que torna o ambiente de uma caverna agradável e confortável. Além disso termos bons espeleólogos distribuídos pelos quatro cantos, que ajudam nessa operação de forma segura.
O leque de opções aumenta sempre. Hoje a espeleologia está sentada no banco de diversas universidades atraindo estudiosos e pesquisadores. A atividade turística está descobrindo o enorme potencial brasileiro e começando a planejar, de modo sustentável, a visitação ecoturística; E dando base a tudo isso, temos um Cadastro Nacional, para juntar todo tipo de informação. Temos muita gente está se dedicando em documentar corretamente as cavernas. A fotografia, a topografia, e a pesquisa, fazem parte dessa tarefa.
Rogerio Ruschel – Existe uma associação nacional de pesquisadores de cavernas? Quantos grupos de pesquisadores e amantes de cavernas existem no Brasil, aproximadamente? O que eles fazem? Quais os mais conhecidos? Como pessoas interessadas podem participar?
João Allievi – Temos no Brasil o clube de espeleologia mais antigo das Américas= A (SEE) Sociedade Excursionista Espeleologia, em Ouro Preto MG. Temos também a nossa SBE – Sociedade Brasileira de Espeleologia, que já passou de seus 50 anos de Brasil. Ligados a SBE existem dezenas de clubes regionais. Esses clubes reúnem espeleólogos técnicos e experientes, que além de guiarem o grupo, ensinam regras de segurança, preservação e aventura. No site da SBE – tem endereços.
Rogerio Ruschel – A Toca da Boa Vista, em Campo Formoso (Bahia) é considerada a maior do Brasil, com 113 Km. Como é realizado o turismo nesta caverna? Qual a caverna brasileira com a maior boca de entrada
João Allievi – A Toca da Boa Vista (BA 82), em Campo Formoso (Bahia) é realmente muito grande. Grande e desconfortável, pois a maioria de seus condutos são estreitos, labirínticos e secos. Não acho que ela seja uma caverna para ser visitada turisticamente. Temos centenas de cavernas abertas ao espeleoturismo, todas oferecendo atrativos cênicos maravilhosos, segurança e conforto. Lembro que uma caverna não se mede pela boca. Conheço uma caverna com entrada tão estreita que mal dá para passar seu corpo. Mas conheço outra caverna com um pórtico de quase 130 metros a maravilhosa Lapa de Brejões – vejas foto na abertura deste post). Tem uma fotografia minha que virou ícone, mostrando a incrível dimensão desse espaço, com um espeleólogo fazendo um rapel na boca Mas no cadastro nacional de informações espeleológicas, a caverna brasileira que tem a maior boca, é a Casa de Pedra – Petar- Iporanga SP. com mais de 260 metros de desnível.
Rogerio Ruschel – Em alguma destas cavernas, algum dia, você ou outros espeleólogos que você conhece já viu sinais ou indícios de moradores extraterrestres?
João Allievi – Nunca, jamais em tempo algum. O mundo das cavernas está cheio de fantasias, lendas e estórias. Não creio que um ser de outro mundo venha impunemente visitar a Terra. Para fazer isso, esse ser deveria, no mínimo, entender de transporte da matéria. OK. Um extraterrestre domina a tecnologia da transferência de matéria, e quando viaja prefere andar escondido nos cantos sóbrios, nos altos das serras ou no fundo das cavernas. E que só apareçam para casais de namorados na beira do lago, gurus ideológicos e outros espantalhos. Credito esse boato ao imenso fascínio que envolve as cavernas. Já ouvi de tudo – até de uma caverna que começa em São Thomé da Letras e termina em Machu Picchu. (Geologicamente impossível). Para mim, extraterrestres em cavernas seguem na mesma linha do absurdo. O que sempre ouço é a tentativa de ligar as pinturas rupestres existentes nas paredes externas de algumas cavernas, a serem alienígenas. Mas isso também fica por conta do imaginário coletivo.
Saiba mais:
João Allievi – jallievi@uol.com.br
Cecav-IBAMA – https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/centros-de-pesquisa/cavernas/cadastro-nacional-de-informacoes-espeleologicas/canie
Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE) – https://www.cavernas.org.br/gruposfiliados
Centro Excursionista Universitário CEU – http://www.ceubrasil.org.br/